vida de pais x vida de avós

Dia desses, estava indo buscar o Vivi no colégio, quando presenciei uma cena que me fez repensar meu relacionamento com meus filhos.

Uma menininha correndo pelo meio-fio, sentou espremida entre um carro e a calçada. Na hora gelei, imaginando que acidente poderia acontecer… Fiquei tensa e imediatamente me imaginei chamando a atenção do Vivi, estivesse ele fazendo a mesma coisa. Cheguei a dar uma meia parada pra ter certeza que ela não se machucaria. Até que segundos depois, vi, vindo calmamente e rindo da “gaiatice”, o avô, que em vez de brigar, chamar a atenção, achava graça da peripécia da pequena. E ela, por sua vez, dava gargalhadas também. Só alegria!

No segundo em que compilei os elementos todos daquela cena, pensei: nossa, eu sou muito estressada! Será que toda mãe é assim?

Naquele dia, olhando o relacionamento daquele avô com a netinha, pensei: só os avós são felizes! Eles é que, de fato, curtem as crianças.

Como não são eles que educam, ganham o direito de rir da traquinagem, podem passar a mão na cabeça, podem dizer “deixa a criança!”, podem dar chocolate antes do almoço, levar pra tomar banho de chuva… tudo isso sem culpa, sem a preocupação de estar estragando a criança, ou criando um moleque mal educado. Avós são tudo de bom! Não brigam, são divertidos, deixam as crianças pintar e bordar e estão sempre apoiando a bagunça e muitas vezes participando dela.

Aí, adivinhem? Lembrei que meus filhos não tem vovô nem vovó aqui pertinho, participando do dia-a-dia, passando a mão na cabeça… ou seja, não tem esse balanço do good cop and bad cop… E nessa hora, maridón me consola: “quem no Brasil tem pai e mãe mais presente que esses moleques?”

É, ninguém! E nesse ponto, dois vivas pela vida aqui na Austrália, onde, muito embora tenhamos que privar os filhos das delícias de se ter avós presentes, nós, os pais, estamos sempre muito presentes – tanto pra brincar, quando pra zangar 😛

 

Extra, extra: mãe mente para filho e quase é descoberta!

Ai gente, esse mundo de hoje tá muito mudado, né? Antigamente – sim, porque eu sou de antigamente, rs – mãe mentir pra filho era coisa normal: “Papai do Céu castiga”,  “Se comer espinafre, vai ficar forte igual ao Popeye”, “Se você não se comportar, o papai Noel não vai trazer presente”, “Você já deixou a cenourinha pro Coelhinho da Páscoa?”… O que não faltam são exemplos de mentirinhas brancas (se existe inveja branca, existe também mentira branca, né não? Ou será que nem isso se pode falar mais sem que apareça alguém atribuindo o “branco” à discriminação? Aff, menor paciência pra isso!).

Anyway, o fato é que eu, assumidamente mãe imperfeita, conto sim, pequenas mentirinhas pros meus filhos – uma das maiores é que o sensor de movimento aqui de casa é uma câmera que o Papai Noel usa pra saber se as crianças estão se comportando direitinho :0| Tá, vai… eu sinto um pouquinho de vergonha. Mas bem pouquinho mesmo 🙂

Mas mentira, vocês sabem, né? A pessoa começa contando uma pequenininha e quando vê, está mais enrolada que linha em carretel.

Antes de ontem, Vivisauro perdeu seu terceiro dentinho e tava todo feliz que ia ganhar uma moedinha da Tooth Fairy (que fique bem claro que não fui eu quem contou essa mentirinha pra ele – eu apenas não desmenti. Vê se eu tenho coragem de destruir castelos de areia de criancinha?).

Na hora de dormir, ele, que junto com o irmão tem dormido as últimas noites no meu quarto (porque eles estão muito assustados com tudo e nada),  colocou o dentinho sob o travesseiro e dormiu feliz da vida, na expectativa da moeda.

Na manhã seguinte, ele acorda no susto e pergunta: Papai, mamãe, eu posso ver se a Tooth Fairy deixou minha moeda?

Eu, que ainda estava dormindo, gelei – A moeda!!!!!

Esqueci completamente de colocar a tal da moeda embaixo do travesseiro.

Ele ficou tão, mas tão triste, que morri de dó. “A Tooth Fairy não veio 😦 Este é o pior dia da minha vida (aos prantos)”

Naquele momento eu poderia escolher entre contar toda a verdade-verdadeira sobre a Tooth Fairy (e Papai Noel e Coelhinho da Páscoa), ou não. Eu escolhi  o que vem depois do “ou”.

“Meu filho, só tem uma explicação (esta parte até é verdade, rs): A Tooth Fairy não existe deve ter ido no seu quarto e como não viu ninguém na cama, foi embora…”

Vivi: mas e agora? Ela nunca mais vai voltar??

Mãe mentirosa: Quando isso acontece, filho, ela volta no dia seguinte, até porque, ela precisa dos dentes, né? Ou você acha que ela iria sair por aí dando moedas SÓ porque um dente caiu? Ela certamente usa esses dentes para alguma coisa – dentaduras talvez? (e a mentirinha estica as pernas). Vamos fazer o seguinte, esta noite você volta a dormir no seu quarto (yes!), coloca o dente de baixo do travesseiro e a gente vê no que dá.

Vivi: Eu posso deixar também um recadinho, explicando o que aconteceu, o que você acha?

Mãe mentirosa: perfeito!

E assim, naquela noite ele foi dormir até mais cedo. Colocou o dentinho sob o travesseiro junto com um recadinho e na manhã seguinte, quando acordou, pulou da cama eufórico e veio correndo e gritando: mamãe, papai!!! A Tooth Fairy veio e deixou um saco de moedas!!!! Este é o melhor dia da minha vida!!!

Mãe mentirosa:  Nossa, filho, um saco de moedas?!?!? (Nossa, como eu to dissimulada) WOW!! Você é very lucky!

Vivi (uns minutos mais tarde): eu só não entendi uma coisa… Esse saquinho é muito grande. É maior que a Tooth Fairy! Como foi que ela carregou? Ou… será que foi você que colocou as moedas lá?

Mãe mentirosa: Eu?!?!! (bancando a indignada), como assim, Vivi? Eu tenho mais o que fazer, né não? (esta parte até é verdade, rs). Além do mais, como você sabe o tamanho da Tooth Fairy se você nunca a viu?!

Vivi: É… Você procura aí no seu iPhone informações sobre a Tooth Fairy, por favor?

Mãe mentirosa: Outra hora, meu filho, você está ficando atrasado pra escola. (ganhar tempo é preciso)

E assim, a mamãe aqui é quase descoberta mentindo. Mas ó, mentirinha de fantasia que não machuca e faz feliz. (cada um dá a desculpa que quer, rs)

Brasileiros na Australia – um café da tarde regado a experiências migratórias

Semana passada, muitos brasileiros ficaram em polvorosa por conta da tal lista de carreiras e profissões em demanda na Austrália. Muita gente viu nessa lista a esperança de mudar, a oportunidade de dar uma guinada na vida, a possibilidade de viver uma realidade diferente, num lugar onde o medo não mora ao lado, num país generoso, que abre as portas e convida imigrantes a chamá-lo de casa.

Mas claro que, como tudo na vida, a história não é tão simples assim e o fato de existir uma lista generosa de profissões em demanda na Aussie Land não te dá a garantia de emprego, tampouco de sucesso. O processo migratório é árduo pra todo mundo, seja pela saudade imensurável que só compreende quem mora do outro lado do globo, seja pelas dificuldades que enfrentamos nos primeiros momentos da vida nova, ou ainda pelos desafios impostos pela fluência da língua e muitas vezes também pela cultura. O fato é que todos que aqui estão tem alguma história de superação digna de ser publicada e lida, especialmente por aqueles que sonham em se aventurar além dos muros invisíveis que temos ao nosso redor quando estamos em nossa terra de origem – a tal da zona de conforto.

Deixar pra trás a família, os amigos, a casa, o país, o conforto do “conhecido”, o emprego e também tudo o que conquistamos durante anos não é pra qualquer um. Começar de novo, em solo estrangeiro, muitas vezes do zero, requer muito mais do que o desejo de mudar de vida,  muito mais do que o desprender-se, do que virar a página. Muito mais do que o espírito aventureiro, requer determinação, concentração, persistência, jogo de cintura, mente aberta, humildade e muitas vezes uma boa dose de cara de pau, porque dificilmente a oportunidade vai bater a sua porta – tem que correr atrás merrrmo, neguinho!

Mas porque eu, que há séculos não falo sobre questões da Austrália (sem que estejam de alguma forma relacionadas aos meus rebentos, rs), estou levantando o ponto agora? Eu te conto…

Foi neste sábado que, reunidos na casa de amigos, tivemos um daqueles encontros VIP, recheado de brasileiros, regado a muita comida, gargalhadas e histórias das mais diversas possíveis. Foi um café nostálgico permeado por relatos de brasileiros que, à primeira vista,  em comum tem basicamente o fato de serem brasileiros.

Estávamos lá, ao redor daquela mesa, um grupo eclético, uns já estabilizados emocional e profissionalmente, outros ainda no iniciozinho da jornada, batalhando por um lugar ao sol. Pessoas de idades e profissões diferentes, que vieram de cidades diferentes, donos de realidades e histórias diferentes e que ainda assim, mesmo tendo, aparentemente, tão pouco em comum, se esbarraram, se reconheceram, se encontraram num grupo carimbado por algumas semelhanças inegáveis: o país de origem, o de destino e o sonho de uma vida diferente. Mas se você olhar bem de pertinho, vai ver que não é só isso.

Sentada àquela mesa, ora contando, ora ouvindo histórias alheias, me peguei pensando no quão pequena era minha experiência de vida antes de me aventurar fora do Brasil, há quase 10 anos. Até então o grupo mais eclético de pessoas que havia passado pela minha vida tinha sido os amigos de faculdade, quando saí daquela vida bairrista adolescente, e conheci pessoas de toda parte do Rio (ohhh). Naquela época, mal sabia eu o que me aguardava. Nem imaginava que dali uns anos, alguns dos meus melhores amigos seriam paulistas/paulistanos – ô praga, hahaha. Não imaginava também que me reinventaria tantas vezes, tampouco poderia supor que chamaria de família, amigos que se tornaram tão próximos mesmo sendo tão diferentes de mim.

Naquele sábado, olhando ao redor, observando cada amigo, ouvindo mais um pedacinho das suas histórias, dos seus medos, das suas superações… tive a certeza de que o que nos une é muito mais do que o fato de sermos brasileiros, é um estado de espírito, uma inquietação que não nos permitiu nos acomodar, que nos impulsionou a desbravar novos territórios e escrever histórias que jamais seriam escritas nas grades do berço esplêndido. Ali eu tive a certeza de que o que temos em comum vai muito além da brasilidade. Nós todos nos apaixonamos pela Austrália (ainda que em momentos diferentes de nossas trajetórias), e mais do que isso, nós todos somos gratos a este país que não só nos abriu as portas, mas nos acolheu e nos aceitou (a muitos já) como cidadãos australianos.  Nossas diferenças podem ser muitas, mas nossa identidade é muito forte.

Sou muito grata a Deus, à vida, ao destino, às minhas escolhas, à proposta do meu marido e a todos que de alguma forma contribuíram para que eu esteja onde estou hoje – escrevendo uma história a cada obstáculos, a cada conquista, a cada tristeza, a cada alegria, a cada desespero, a cada euforia. Não troco a minha experiência de vida, nem por uma cobertura na Vieira Souto. Não troco minhas gafes, meus tropeços, meu aprendizado por nada.  Graças a isso, sou muito feliz com a Erica de hoje – mesmo morrendo de saudades da família, dos amigos e da minha cidade maravilhosa.

Veja bem, são 10 anos fora e morando de aluguel. Não fiquei rica, minha conta no banco é modesta, mas minha conta na alma é gorda, e, certamente, nunca me faltará histórias pra contar.

Já passamos por perdas que nos fizeram questionar se estávamos mesmo fazendo a coisa certa, mas já tivemos também muitos motivos para comemorar.

E hoje eu vim aqui especialmente pra dizer isso: É muito bom estar aqui, viver uma vida sem medos, ter amigos lindos, que parecem que foram escolhidos a dedo, quando na verdade foram um presente do acaso (ou seria da identidade que nos atraiu?). Ao contrário da eterna saudade, arrependimento não faz parte do nosso rol de sentimentos. Não mesmo. Tudo valeu a pena. Melhor que isso, tudo está valendo a pena, porque eu tenho certeza que, por mais que hoje estejamos estabilizados, muito ainda há por conquistar, e esta é uma das belezas de se morar fora, sua vida dificilmente será monótona, seu futuro dificilmente será previsível. Sem falar que o mundo, que é tão grande, hoje me parece pequeno, acessível. Desculpe-me a redundância, mas perder as amarras é realmente libertador 🙂

Se você é como eu, o Mauricio, a Carol Martins, o Cassius, a Ana, o Renan, a Flavia, o Luciano, a Carol Milani, o Humberto, a Luciana, o Raul, a Mafê, o Marcelo, e tantos outros… se você também tem o espírito aventureiro, a determinação, a persistência e o desprendimento necessários, para encarar uma mudança de verdade, vir para a Austrália pode sim ser a maior viagem da sua vida – daquelas que em que você vai acumulando a melhor das bagagens a cada dia, uma bagagem que não pesa, que te transforma, que abre seus olhos, que amplia seus horizontes.

Entretanto, aviso: migrar não é pra qualquer um, e deve ser feito com cautela, no tempo certo e especialmente sabendo que nada é 100% garantido. Por mais que eu ame morar aqui e que aconselhe prozamigo :), acho importante que os candidatos a vida nova tenham em mente que vender tudo no Brasil e vir pra cá com filhos e sem emprego garantido é um risco com chances maiores de decepção. Pra você que se empolgou com a lista e está querendo vir de mala e cuia e rebentos, aconselho: cautela e planejamento cuidadoso são muito mais importantes do que o espírito aventureiro. Pra você que é estudante, solteiro, recém-casado ou recém formado: se joga! hahaha Se não der certo, você volta. Para todos que pretendem conseguir um emprego na sua área aqui: inglês fluente e experiência são fundamentais – claro, sempre é possível fazer o caminho mais longo, aprender inglês aqui, trabalhar em outras áreas… até finalmente chegar onde quer. Só tenha em mente que o processo não é pra qualquer um e que sempre há espaço para angústia, estresse, decepção… como tudo na vida.

Mas ó, digo e repito, perder as amarras é libertador! Aliás, é enriquecedor.

_______________________________________________________

PS. Este post foi inspirado pelo papo no café da tarde e combinado com a Carol, uma amiga que escreve um blog nota 1000, parada obrigatória pra você que quer saber mais detalhes sobre a vida em Melbourne. 

 

 

E a saúde como vai?

Tá sentado? Se não tá, senta, porque lá vem a história.

Antes de viajarmos a correria foi tão grande que acabei não postando sobre o assunto que mais tomou meus pensamentos no último ano, o Sjogrens.

Serei breve (oi?), até porque, estou passando por um momento ótimo, então não quero boicotar a mim mesma trazendo à tona pensamentos e sentimentos que me fazem mal.

No mês que antecedeu nosso embarque pra Europa, resolvi mudar algumas coisas. Parei de ler sobre Sjogrens, Lupus, Celiac Disease e todas as doenças e sintomas associados, porque definitivamente, saber sobre o infortúnio alheio não só não estava me ajudando a “cope” com minha condição, mas, pior, estava me levando pro fundo do poço, um lugar escuro, frio e sem esperança. Resolvi então olhar o outro lado da moeda, dar uma chance ao engano, focar na esperança.

Comecei trocando de clínico geral. Maridinho encontrou pra mim a melhor GP de Melbourne. Ela é simplesmente tudo o que eu estava precisando – bem nos moldes Soninha. Extra cuidadosa, atenciosa e humana. Como a maioria dos GPs por aqui, ela não é daqui. É árabe, eu acho (ou algo que o valha), tem um jeitinho frágil e um olhar compreensivo. Menrit Abrahams é seu nome, caso alguém por estes lados, esteja querendo mudar de médico.

Bastou a primeira consulta (sem pressa), o primeiro contato, a primeira conversa, pra que eu visse um fio de luz, a chamada esperança, no fim da escuridão do túnel em que eu me encontrava. Fui, conversei, levei exames, contei tudo, desde o princípio.

Ela me pediu outros tantos exames e me sugeriu procurar uma segunda opinião – aliás, gente, como foi que eu mesma não pensei nisso? Talvez por eu estar tão mergulhada em minhas mazelas, não tenha conseguido considerar que nem tudo fosse realmente verdade.

Fiz novos exames. Descobri que muito embora minha Hemoglobina estivesse okay, minha ferritina não estava nada okay e isto poderia explicar muita coisa. Não tudo, mas muita coisa. Meus anticoprpos antinucleares seguem nas alturas, e isso aliado à boca seca já indica que o Sjogrens de fato faz parte da minha vida. Mas agora já vejo a doença com outros olhos.

Antes de me encaminhar para um novo reumatologista, ela me disse assim: “não posso te dar um diagnóstico definitivo, porque não sou especialista, mas eu diria que a maior parte dos seus problemas estão associados aos níveis baixíssimos de ferritina no seu organismo… E, sinceramente, não acredito que você tenha Lúpus”. Ouvir isso foi como receber uma injeção de ânimo, uma dose de esperança.

Fui ao reumato. Na verdade não foi exatamente o profissional que ela havia indicado, mas seu colega de consultório, já que o médico referido não estava mais aceitando pacientes. Quando cheguei para a minha consulta, me deparei com um médico mais novo do que eu esperava, o que a princípio me causou uma certa descrença. A verdade é que por mais tolo que possa parecer, cabelos brancos num médico te (me) dão mais segurança. Mas a falta de confiança foi-se embora um minuto após a consulta começar. Além de ser um profissional super atencioso, ele conduz grupos de pesquisa em Lúpus no Hospital Universitário da Monash, o que por si só já não é pouca coisa.

Fiz mais exames.

Ao retornar, tive o atendimento que estava esperando desde o início dessa história toda. O Sjogrens de fato estava confirmado, entretanto, após uma longa conversa, ele me garantiu que neste momento eu não preciso de nenhum tratamento, nenhum remédio, nada, porque apesar do sjogrens poder sim desencadear condições graves, a maioria dos pacientes com a doença, passam a vida só com a boca e os olhos secos e acabam aprendendo a lidar com isso, o que, sinceramente, está bom pra mim :). Disse também que, apesar do Lúpus andar de mãos dadas com o Sjogrens, eu não tenho absolutamente nada que indique a presença desta segunda doença, apesar da perda de cabelos exagerada. Disse, entretanto, que o fato de minha ferritina estar muito baixa, mesmo eu comendo carne vermelha e tomando suplemento de ferro, indicava que alguma outra coisa estava errada: ou eu estou perdendo muito ferro, ou não estou absorvendo at all, e isso deveria ser investigado. Mas a melhor parte da consulta foi esta: “Erica, vá à praia. Pegue sol, deixe a vitamina D entrar naturalmente. Só não abuse, porque ninguém pode abusar do sol, especialmente na Austrália, onde o índice de câncer de pele é altissimo. Se você apresentar algum sintoma após a praia (cansaço extremo, rash…), você volta aqui e a gente toma as providências necessárias.”

Não, vocês não tem noção do quanto isso me fez feliz. Foi como se eu estivesse acorrentada no fundo de uma caverna escura e de repente tudo se transfomasse em pó: caverna, correntes… tudo virou pó. Cheguei a sentir o sol ardendo na pele e a ouvir o barulhinho do mar. Uma felicidade inebriante tomou conta de mim. Confesso que não sei o que  e se ele falou algo mais. Eu havia acabado de ouvir tudo o que eu precisava ouvir e estava nas nuvens.

A história continua…

Minha querida GP, me indicou também uma gastro, e foi lá que, ao ver os resultados dos meus exames, ela conversou comigo sobre a possibilidade de eu ter a tal da Celiac Disease (intolerância a glúten) , que apesar dela não acreditar, dado que eu não apresentava muitos indícios, precisava eliminar as possibilidades para encontrar o motivo para níveis tão baixos de ferro no organismo.

Agendei uma transfusão de ferro e dois dias antes de viajarmos, lá fui eu pra clínica, passar horas espetada no braço, recebendo doses cavalares de ferro. Dessa forma, me garantiram que, pelo menos, meu ferro iria estabilizar por um bom tempo e logo, logo eu iria me sentir mais bem disposta. Dito e feito. Não fosse essa injeção de ferro, nossa temporada fora teria sido um fiasco.

Mas não pára por aí… Além da reposição de ferro (que me custou a bagatela – só que não – de 500 dólares), agendei uma endoscopia e uma colonscopia para quando voltasse da viagem – isso acontecerá dia 7 de agosto – para conferir se está tudo certinho. Caso não esteja, a má absorção de ferro estará explicada, mas… terei que cortar o glúten foreverandever da minha dieta, o que será devastador. Mas a nova Erica não se desespera por antecipação. Deixemos o desespero para quando o motivo for real, porque sempre existe a possibilidade de não haver motivo e aí, terei me estressado por nada.

Hoje, três meses após estas mudanças fundamentais, que foram sucedidas de 2 meses fora, estou de volta à Melbourne e à vida normal, ainda com os cabelos bem ralinhos e ressecados e a boca extremamente seca. Mas isso não vai me impedir de ir ao salão retocar as raízes, tampouco de degustar, vez por outra, meu vinhozinho (hábito que adquiri nesses dois últimos meses, muito embora minha boca seca não agradeça).

Estou também cansada, sem energia, sem ânimo, mas não por causa da doença, acredito, até porque o Mauri também está assim e “culpamos” os passeios intensos dos últimos 10 dias, seguidos de uma viagem infinita de volta que atrapalhou completamente nosso fuso, nos fazendo trocar o dia pela noite já há 3 dias. Acredito, sinceramente, que o cansaço extremo e a falta de disposição que eu andava sentindo se deviam à falta de ferro. Agora, é torcer pra que o tenha gerado a falta de ferro seja a perda de ferro e não a má absorção.

Dedinhos cruzados 😉

PS. Já falei que tô num bronze de dar inveja (e olha que só fui à praia 3 vezes nesses 2 meses)?  Mas a minha felicidade maior é que ele não veio acompanhado de nenhum sintoma de Lúpus, o que indica claramente que, pelo menos essa autoimune não me pertence (pelo menos não no momento). Significa também que se eu tivesse começado a tomar aquele caminhão de remédios fortes que me foram prescritos pelo meu ex-reumato, hoje estaria aqui cheia de efeitos colaterais, feeling míserable. Santo sexto sentido.

Felicidade é o que descreve com perfeição o meu estado de espírito no momento. Agora é voltar pra Yoga – que I miss so much – e viver um dia de cada vez, uma alegria de cada vez, porque a tristeza e o estresse eu quero bem longe de mim.

Quem acha que minhas últimas decisões antes da viagem foram as melhores que fiz nos últimos tempos, levanta a mão 🙂

 

chegadas e partidas: o ciclo da vida

Dizem que nada nesta vida é por acaso, que tudo segue um plano, que cada acontecimento tem uma razão de ser. Alguns dizem até que antes de sermos concebidos, escolhemos conscientemente quem será o nosso pai e nossa mãe. Dizem também, dentre muitas outras coisas, que escolhemos previamente as dificuldades pelas quais iremos passar, assim com as pessoas que estarão ao nosso lado durante nossa jornada nesta vida terrena, e até mesmo de que forma deixaremos este plano. Mais do que isso, dizem também que nossa estada aqui é apenas uma ínfima parte de nossa existência. Não sei vocês, mas pra mim, infelizmente, nada disso acalanta sofrimento algum.

Além do mais, o que tudo isso quer dizer? Que o livre arbítrio de nada adianta? Que não podemos mudar o curso da nossa “pré-programada” vida? Que nosso destino é imutável?

Eu, embora me considere seja uma pessoa de fé, não sei exatamente no que acredito, nem no que deixo de acreditar (além de Deus). Uma coisa é fato: há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”, então prefiro não tentar entender os mistérios, apenas tentar aceitá-los resignadamente como parte da vida…

Aí vem uma tempestade totalmente inesperada, leva pra um outro plano uma pessoa muito querida. Esta tempestade sacode todas as estruturas e me coloca em estado de profunda tristeza, me deixa também cheia de medos. Medo da imprevisibilidade e fragilidade da vida. Medo das consequências das escolhas que fiz. Medo de não estar seguindo o caminho “certo”. Medo, medo, medo. E todo esse medo e tristeza que passam a habitar meu descontrolado corpo, abrem as portas dele para hóspedes indesejáveis, doenças que chegaram para ficar, para modificar para sempre a minha vida, mas espero eu, não a minha essência.

Meus desafios hoje são outros, meus planos também. Perdas e doenças nos fazem repensar a vida (ainda que momentâneamente), reclassificar o grau de importância das coisas, das pessoas, das situações.

Eu hoje, apesar de ainda estar sobre um estresse grande, que se reflete no meu dia-a-dia, nas minhas reações e também na quantidade de cabelos caídos pela casa (e na falta que já estão fazendo na minha cabeça), encaro as coisas de forma diferente: tentando dar importância ao que realmente importa. Briguinhas, mal entendidos, alfinetadas, disse-me-disse… nada disso tem espaço em minha vida. Já me incomodei muito com coisas que não valiam a pena, hoje eu quero é paz. Paz, amor, família e… saúde (toda possível). Infelizmente ainda há muitas coisas que fazem meu sangue ferver. Injustiças, crueldade, mentiras deslavadas e falsidade são coisas que ainda me afetam demais, então eu faço o que? O que está ao meu alcance: tento me afastar dos irradiadores de coisas/sentimentos ruins. Mas às vezes os sentimentos ruins, como a tristeza e o medo, ainda assim afloram…

Hoje, faz um ano que que minha querida sogra foi arrancada deste plano. Um ano já e eu ainda não me acostumei à ideia. Ainda me emociono e sinto que as peças estão fora do lugar. Talvez o fato de morar aqui tão longe e não ter acompanhado o desenrolar da vida, nem o dia-a-dia sem sua presença, tenha me impedido de reorganizar as peças dentro de mim. Pra mim, ainda é muito estranho pensar que no dia que eu voltar ao Brasil, ela não estará lá com seu sorriso largo e os olhos mareados. Difícil imaginar passar pela cozinha sem ouvir o “alecrim, alecrim dourado, que nasceu no campo sem ser semeado…”. Talvez por isso, não tenhamos no horizonte o dia que visitaremos a terrinha novamente (ver tudo diferente será muito difícil)… talvez por isso fiquemos inventando desculpas e colocando empecilhos. Talvez por isso, eu me dedique em tentar convencer a família que eles precisam vir (mais) aqui.

Eu definitivamente não sei lidar com perdas, definitivamente não aprendi dizer adeus, muito menos quando não me foi dada a oportunidade da despedida (não que isso adiante alguma coisa), então a tristeza é ineviável.

Entretanto, Papai do Céu (ou a vida, a sorte – chame como quiser), nas vésperas de completarmos um ano sem a Soninha, nos deu de presente a alegria do nascimento do Bernardo – o quinto netinho, que infelizmente ela não estava aqui para receber com um abraço, mas sabe de uma coisa? Tenho certeza que de alguma forma ela estava presente, lá na sala de parto, e o abraçou com seu amor infinito bem na hora que o pequeno viu a luz . A Soninha, que sempre quis ter um milhão de netos, certamente estará sempre entre nós, protegendo nossos pequenos Palmeirinhas desta geração, e nós sempre lembraremos dela, dos seus cuidados, das suas palavras, do seu carinho e dedicação. Sua presença está eternizada em nossos álbuns de família, em nossos pensamentos e nas infinitas histórias que temos pra contar. Seu corpo pode não estar mais presente, mas sua energia, de alguma forma habita cada um de nós que tivemos o privilégio de tê-la em nossas vidas.

Dizem que quando a vida fecha uma porta, Deus abre uma janela, então que nosso pequeno Bernardo, meu quinto sobrinho, já muito amado, seja esta janela de esperança, de amor e de certeza que esta será sempre uma grande e unida família, da qual eu orgulhosamente vim fazer parte.

Deixo aqui meu amor aos novos papais e ao seu primogênito, pela grande chegada.

Deixo aqui também minha saudade eterna à Soninha pela devastadora e precoce partida.

Sobre dentes e mentiras (brancas)


Esta semana, Vivi que já estava mega ansioso com o dente mole, finalmente ficou banguela. Se bem que banguela mesmo não ficou, já que o dentão permanente (e afoito) nasceu e cresceu antes do de leite cair, rs

Eu, claro, tinha que arrancar o primeiro dentinho do meu primeiro filhotinho. Esperei longos 5 anos, 9 meses e 19 dias, mas o dia finalmente chegou. E foi à noite, logo após o jantar, que arranquei o dito-cujo.

Vivi gargalhava de alegria, eufórico como nunca vi! O sangue rolando solto e ele rindo, feliz da vida. Vai entender esses meninos!

Segurou o dentinho miúdo até a hora de dormir e quando o momento chegou, colocou-o sob o travesseiro e me perguntou preocupado: “mas mamãe, como a tooth fairy (fada dos dentes) vai entrar aqui em casa?”

Ao que eu respondi: “ah, meu filho, não se preocupe, ela dá um jeito! Papai Noel que é muito maior entra, não entra? Então!”

E neste momento, me senti uma enganadora-mentirosa – mas fazer o que? Quem nunca fez no chão as pegadinhas do coelhinho da Páscoa que atire a primeira pedra, rs

Da Austrália para a Gazeta de Piracicaba

Do Rio para Bloomington, de Bloomington para Melbourne e de Melbourne para a Gazeta de Piracicaba 🙂

Hoje, domingo, acabou de sair uma matéria escrita pelo fofo do André Luís Cia, sobre cinco “Blogueiras Brasileiras… Cidadãs do Mundo”.

Quem quiser conferir, é só acessar o site da Gazeta  de Piracicaba, lá você pode conhecer um pouquinho da minha história 😉 Tem também história da Ann (Inglaterra) – Brasileiras Pelo Mundo – da Carol  (Hungria), da Karla (Israel) e da Martha (EUA)

não tá ruim, não, né, gente? 😛

 

fotcheenha na capa 😛

Quem diria, né? A carioca posando em jornal de São Paulo, rs