Oitavo dia de férias: aula de culinária tradicional balinesa (outro post gigante)

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O que dizer deste dia? Perfeito! Bom, pelo menos eu achei 🙂

Não curto muito fazer passeios guiados, geralmente evito ao máximo qualquer coisa que seja muito turistona, mas vez por outra faço exceções e esta foi uma delas. E, ó, arrependimento zero. 

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Procurando por atividades interessantes em Bali, encontrei o Voyagin, um site que reúne atrações para os mais diversos gostos. Quando bati os olhos nesta cooking class, super bem avaliada, não pensei duas vezes (mentira, pensei sim, rs), reservei nossos spots. Várias foram minhas motivações para marcar esta aula de culinária tradicional balinesa, uma delas foi o fato do Nick adorar cozinhar; outra foi eu ter amado a culinária local e querer aprender  as técnicas de preparo locais; além disso, queria também vivenciar uma Bali não turística, uma Bali dos locais. Queria saber mais sobre a cultura, sobre as tradições, sobre o estilo de vida balinês e, acredite, a culinária diz muito sobre os costumes de um povo. Estar inserido no ambiente deles, no dia a dia deles, então, é um mergulho de cabeça na realidade por trás dos sorrisos largos e do Singlês falado até pelos mais humildes.

E lá fomos nós!

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Acordamos cedo, tomamos café da manhã e partimos rumo a Sidemen, uma cidadezinha no interior da ilha, cercada por fazendas com suas plantações de arroz, onde a população é exclusivamente local. Você não vê um turista pelas ruas, vê, sim, criancinhas muito pequenininhas andando sozinhas de mãozinhas dadas e olhinhos que se arregalam curiosos ao ver um turista.

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Nossa primeira parada foi o mercado popular. Que experiência! Os únicos não locais éramos nós, então, obviamente, todos os olhares nos seguiam. Os meninos foram só sucesso e roubaram muitos sorrisos e olhares encantados 🙂 

O mercado ficava dentro de um galpão e era bem grande, com seções diversas, incluindo uma área de artigos religiosos, com cestos, pedestais, flores, muitas flores, incenso e mulheres fazendo cestinhos de folha de coqueiro. Segundo nosso host nos contou, bandejas/cestos tecidos por homens não têm valor espiritual, porque homens não tem as qualidades necessárias, a pureza de coração para produzir artigos para as oferendas, por isso só se vê mulheres fazendo este trabalho.

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Aqui na Indonésia, eles fazem oferendas todos os dias, duas vezes, pela manhã, para pedir proteção e no fim do dia para agradecer. O interessante é que eles fazem oferendas não só para os deuses, como também para o demônio.  De acordo com nosso host, eles fazem desta maneira para atingir o equilíbrio: “Se Deus fica feliz e o demônio fica feliz, as pessoas ficam protegidas e felizes.” Curioso mesmo é que vimos muito, mas muito mais oferendas para o demônio do que para Deus. Acho que o povo, no dia a dia, se preocupa mais em manter o demônio satisfeito, assim Deus não precisa trabalhar muito para protegê-los 🙂 Mas por que eu acho que as oferendas para o demônio são em número maior? Bem, as oferendas para o coisa ruim são aquelas que estão no chão. Aquelas para Deus (ou deuses) estão sempre em altares. Sem dúvida nenhuma, vi muito mais oferendas no chão do que no alto. Mas pode ser que os altares se concentrem dentro das casas/lojas… Anyway, o que eu sei é que é muita dedicação, o povo balinês (não posso falar pelo resto da Indonésia) é extremamente religioso.

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Outra coisa que achei bem interessante é que as oferendas maiores, feitas nas cerimônias, fazem muito mais sentido do que o formato Afro-Brasileiro (os despachos?). Bom, eu não sou entendedora do assunto e muito pouco sei sobre umbanda, candomblé e afins, mas do pouco que sei, quando se faz uma oferenda, com frutas, farofa, galinha… ninguém pode comer, certo? Pois bem, em Bali, eles preparam uma oferta linda, cheia de frutas e flores, levam para a cerimônia, onde são abençoadas e depois levam de volta para casa, onde compartilham com a família. Achei mais bonito o conceito 🙂 

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Bali é uma ilha bem pobre e o turismo tem uma importância enorme na vida das pessoas. Por exemplo, a quantidade de massagistas é insana. Na praia, nas ruas, a cada 10 passos tem uma portinha, algumas simples, outras mais arrumadinhas, oferecendo o serviço a um preço inacreditavelmente baixo. Baixo para nós, claro. Para eles, cada hora de massagem em que ganham 7 dólares é uma vitória, motivo para celebrar. É por essas e outras que eu aconselho, se for à Bali, não deixe de dar gorjeta. O que para você é migalha, para eles é muita coisa, faz uma diferença enorme no orçamento da família. Mas não pense você que é necessário dar gorjeta para ter um atendimento de primeira com um sorriso no rosto, não, tá? O povo balinês é lindo e cortez, com ou sem gorjeta. Claro que, com gorjeta eles voltam mais felizes para casa 🙂

Mas eu que estava falando do meu passeio, acabei dando outro rumo para essa prosa. Foca, Erica, senão você não termina hoje 😛

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Pois bem, após o mercado, fizemos uma pequena parada na family house do nosso host, onde tivemos mais uma aulinha express sobre a cultura local. Aprendemos, por exemplo sobre a estrutura de da family house tradicional. Nem todas as famílias tem uma family house, até porque, como contei, a região é muito pobre. Esta que visitamos contava com a casa principal, dedicada aos mais velhos (“fundadores” da propriedade), uma casa para os recém casados, uma para as visitas, uma para quem, de fato, habita a propriedade no dia-a-dia e um templo – bem que eu suspeitei que os infinitos templos que vimos por aí não poderiam ser todos abertos ao público. Além disso, notamos que bem no centro da propriedade enfileiravam-se alguns cestos de palha, de cabe;ca para baixo, onde ficavam galos – de briga, imaginei. E de fato eram. Mas por quê? Seria uma atividade de lazer? Nananinanão. Na verdade, a briga de galos faz parte de algumas cerimônias, quando é necessário oferecer sangue fresco ao demônio, então, em vez de simplesmente matar um animal, eles os colocam para brigar e o perdedor entra como parte da oferenda. Bizarro, né? 

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Após uma breve parada na family house, pegamos o caminho da roça, literalmente 🙂 Nos embrenhamos pelas plantações de arroz que estavam meio alagadas por conta da chuva da noite anterior. Naquele momento, agradeci a presença de espírito que não me deixou calçar Melissas, rs. Vivi, entretanto, com seu tênis novo, não curtiu muito o estado em que ficaram no final do dia. Isso porque ele não atolou o pé na lama tantas vezes quanto o pobre Nickito que, metido, fez questão de ser o líder da caminhada e tomou logo a dianteira.

A caminhada foi até bem agradável, apesar do terreno desnivelado e do cuidado para não torcer o tornozelo, rs. A vista era mesmo linda, mas não muito diferente da que temos em diversas partes do Brasil, inclusive no interior do Rio. O campo verde, as plantações com montanhas ao fundo… poderia caminhar o dia inteiro com essa paisagem. Maaas, estávamos ali com o propósito de colher os ingredientes para nossa aula de culinária. Foi o que fizemos 🙂 

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Havia conosco, outra família, vinda de uma cidadela de 2 mil habitantes na Austrália. Claro que nunca ouvimos falar da cidadela, nem mesmo da  cidade “grande” mais próxima, Orange, mas foi bem interessante  me dar conta de que nem só de Melbourne e Sydney vive uma Austrália e que, na verdade, há muito mais cidadelas do que cidades grandes, o que parece óbvio, mas a gente só se dá conta quando encontra pessoas desses lugares. O mais interessante é que, ao contrário do Brasil, pessoas que vivem nas cidadelas viajam o mundo, ou seja, morar num vilarejo  definitivamente não significa viver limitado ao vilarejo. Pelo menos na terra do canguru – mas isso não chega a ser novidade. Que outro povo tira, às vezes, dois anos de licença para viajar o mundo? Aqui em Melbourne, o eletricista que de vez em quando vem aqui em casa, já me contou de altas viagens. Ele, inclusive, conhece mais do Brasil do que eu!

E lá estou eu mudando novamente o rumo desta prosa.

Anyway, vamos ao finalmente. 

A aula de culinária em si foi bem educativa. Além de prepararmos tudo utilizando métodos tradicionais (para não dizer primitivos, rs), sem utilizar gás nem eletricidade, aprendemos que em Bali, as pessoas não tem o costume de guardar coisas na geladeira. O que prepara-se hoje, come-se hoje. Nem mesmo os temperos são preparados aos montes. Tudo na medida certa, até porque, as oferendas também são frescas.

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Preparamos o Base Gede, que nada mais é do que uma mistura básica de temperos, nos moldes tradicionais num pilão de pedra. Aprendemos uma forma diferente de fazer molho de tomate, onde, primeiro você ferve os ingredientes para só então moer, misturar e refogar. Muito interessante. aprendemos também a fazer leite de coco e óleo de coco. Pirei! 🙂

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Aliás, pirei também com a sopa de jaca (pai, mãe, tomei sopa de jaca!!!). Vocês não tem noção, eu ODEIO jaca! Mas descobri que ela verde, além de não ter aquele cheiro que eu acho horroroso, é muito saborosa. Também nunca havia comido mamão verde refogado. Mamão verde para mim era para fazer doce e só, mas estava errada. Muito bom!

A aula toda foi só sucesso (pelo menos para mim, rs), aprendi muito coisa, inclusive sobre o quão fundamental é o coco na culinária local. Eles só cozinham com óleo de coco, açúcar de coco, leite de coco. Usam coco ralado no preparo da comida e pra finalizar redondinho, utilizam a casca do coco no fogão à lenha (ou deveria dizer fogão à casca de coco?), porque além de dar um gosto especial aos grelhados, produz menos cinzas. 

Outra característica da culinária tradicional balinesa é que eles utilizam como base o que tem disponível no dia e evitam ao máximo o desperdício. Se tem mamão verde, usam mamão verde, se o que tem é jaca verde, usam jaca verde. Não tem porco hoje? Vai de peixe. E por aí vai.

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Nickito ficou um grande fã do chazinho de gengibre com capim limão que nos foi servido logo na chegada. Tão fã que pediu mais. Já da comida não gostou muito. Além da mistura de temperos ser bem diferente, era também bastante apimentada, ou seja, nem o Nickito nem o Vivi gostaram muito.

Ao final, junto com a sobremesa (arroz preto doce) tomamos um chazinho de roséola, que não é o mais delicioso, mas aparentemente auxilia no emagrecimento, rs e deve ser tomado junto às refeições. Fica a dica 😉

Saí de lá me sentindo tão conhecedora da cultura balinesa rsrsr

Em tempo: Nickito que estava empolgadíssimo se decepcionou – de fato, não era uma atração para crianças pequenas. As facas eram extremamente afiadas, o ambiente era bem rústico e o chef, apesar de falar inglês, tinha um sotaque muito forte, tão forte, que muitas vezes nem nós entendíamos bem.

PS. Uma vez, há muitos e muitos anos, quando eu ainda estava na faculdade, um amigo da família levou um jovem casal de australianos lá no sítio dos meus pais. Eles queriam ter uma experiência no mato, na mata, na natureza… Pois bem, meu pai os levou para andar por dentro do sítio, pelo bananal, pela mata, por lugares que eu mesma nunca andei. O casal voltou da andança com as canelas coçando por causa de urtigas pelo caminho, mas com um largo sorriso no rosto. Eu, vendo a felicidade deles, não entendi nada! Como assim? Felizes porque andaram pelo meio do mato? Gente doida! hahaha.  Mal sabia eu que meu pai, levando os gringos para um programa de índio estava à frente do seu tempo, hahaha

Se me dissessem, naquele dia, que dali a uns 15 anos, eu iria estar em Bali, andando pela plantação de arroz e colhendo minhas próprias verduras para fazer meu próprio almoço num fogão à lenha, ops, à casca de coco (e pior, que eu teria pago por isso, por essa experiência), eu teria dado uma baita gargalhada. Impossível. Aham, impossível… 

E não é que mais uma vez mordi minha língua? Não só paguei pela experiência, como adorei (virei gringa, I guess) e já estou bolando uma atração para gringo lá no sítio, com direito à aula de Pilates na natureza. Quem viver verá 🙂

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