Entrando no clima de despedida: minha casa (e meu coração) de portas abertas – parte IV

Eh, gente, a coisa está cada vez mais real, a ficha vai aos poucos caindo e eu começo a permitir que a saudade tome conta. Sim, aquela saudade antecipada já conhecida que me acompanha em tantos momentos.

Hoje bateu saudade desta minha casa, onde passei os 4 últimos anos. Desta casa que há dois dias vem esvaziando, perdendo a forma, abrindo espaço pra minha saudade entrar.

Esta foi a casa em que moramos por mais tempo, desde que nos casamos. Foi a casa mais barulhenta (barulho de crianças) no lugar mais silencioso (mentira, nosso primeiro apê lá em Bloomington também ficava num lugar beeeeeeem silencioso). Foi a casa em que os meninos, juntos, correram ao redor da mesa, subiram e desceram as escadas, também correndo, incontáveis vezes. Foi onde nós quatro fizemos muitas coreografias juntos ao som das mais variadas músicas, onde cantamos, jogamos infinitas partidas de uno, foi onde eu e o marido mais cozinhamos juntos, onde, deitados no sofá amarelo (que já partiu para uma nova vida), assistimos vários filmes, com um olho na TV e outro lá fora, no parque em frente, onde os meninos tanto brincaram.

A casa vai ficar pra trás, mas carregaremos um pedacinho dela com a gente, um pedacinho do tamanho de mais de quatro anos, recheado de infinitas lembranças: as gostosas e também as tristes. Vivemos tanto nesta casa! Há tantas histórias entre estas paredes. Tantos amigos já passaram por aqui, tantas foram as festas, as celebrações, os jantares e almoços – combinados ou de improviso. E eu vou levar isso tudinho comigo, na memória, nas fotos, no coração.

Uma nova casa nos espera, um apartamento com bem menos espaço, num lugar muito mais barulhento e agitado. Vou finalmente voltar para a vida cosmopolita, justo agora que eu havia me acostumado aos ares dos suburbs. A vida será diferente, eu acho. Ou não. No fim das contas somos nós que fazemos a casa, não é mesmo? Sei que os primeiros meses desafiarão minha sanidade, sei que me depararei com momentos difíceis, sei também que a barreira da língua é real, mas apesar de estar, sim, estressada pra caramba, estou também de peito aberto, meio que ansiosa para começar logo a vida nova. Para mim, a angústia da espera é sempre a pior parte.

Hoje, enquanto retirava os álbuns da estante (que foi vendida), não pude me conter e folheei alguns. Ô nostalgia! Foi aí que decidi que “na hora do recreio” iria postar aqui um tour pela nossa quinta casa.

Catei fotos que estavam espalhadas (umas estão sofríveis, eu sei), fotos de épocas diferentes, algumas bem antigas, outras bem recentes, um apanhado geral do que foi/tem sido este nosso lar, durante estes 4 anos.

Pode entrar que a casa é sua 😉

Esta é a área mais utilizada da casa e compreende sala de TV, sala de jantar e cozinha. Algumas coisas mudaram ao longo do tempo, mas a base (sofá amarelo e mesa escura) seguiram conosco durante toda nossa estada na terra dos cangurus. O Detalhe é que a mesa era para ser de madeira clara, mas o marido pegou a mesa errada e acabamos ficando com ela mesmo, rs

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E já que a mesa era escura, acabamos optando por estantes e móvel de tv no mesmo tom (muito embora eu nunca tenha curtido muito a ideia).

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Meu sofá amarelo era a minha paixão e ele até que sobreviveu muito bem a dois molequinhos. Hoje, ele habita outra casa, de filhos de Brasileiros, para minha alegria 🙂

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Notem que há projetinhos DIY por toda parte 🙂

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O que eu mais curto nesta casa é a iluminação natural: luz por todos os lados! Adorooo!

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Adoro também os detalhes que só uma casa decorada aos poucos tem: o galhinho em cima da moldura na parede eu encontrei aqui fora na calçada 🙂

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Outra coisa da qual eu não abro mão é deixar a minha marca pessoal, seja emoldurando uma ilustra que eu fiz, ou transformando uma colagem de folhas de revista em quadro. Ah, também adoro quando faço um achado: esta gravura do Rio antigo encontrei na casa dos meus pais, enrolada num tubo, amarelada e um pouco poída pelo tempo. Tratei de trazer comigo e providenciar uma moldura pra ela. Esta eu não dou, não troco e não vendo 🙂

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Outro grande achado foi meu amado móvel azul bic. Amo, amo, amo de paixão. Amo tanto que mesmo não tendo lugar pra ele no apê coreano, vou levá-lo comigo, nem que eu tenha que colocá-lo no meio da sala! haha

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Onde hoje mora o aparador azul, já foi lugar de um outro aparador, na verdade uma estante adaptada com pernas 🙂

As bolsinhas de arame foram presentes de uma amiga querida e estilista super fera, dos meus tempos de modelete 😛

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Flores frescas nunca podem faltar!

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O hall de entrada, volta e meia ganhava novos elementos, novas cores, especialmente na época do saudoso DIY Coletivo.

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Uma característica bem marcante da minha casa é a ausência de paredes peladas. Outra é a mistura de estilos, um verdadeiro samba do crioulo doido, rsrs. O que eu posso fazer se o que eu gosto mesmo é de tudojuntoemisturado? Abraço a causa com gosto 🙂

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A sala de estar, apesar de pouco utilizada (só passa pra esta sala aqueles amigos que vão ficando após o evento, sabe? É a sala super íntima, rs), acabou ficando bem aconchegante. E olha que ela teve infinitas versões (esta primeira foto é a mais recente e da que gosto mais).

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Ao lado da sala de jantar, fica o cantinho de leitura, que só desaparece em dezembro, já que é onde armamos a árvore de Natal.

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Teve uma época que eu era aloka da fita adesiva. Neste período, nem o lavabo escapou das minhas intervenções. Acho que eu estava com muito tempo livre também, rsrsr.

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Acho que dá pra notar que eu prezo demias os detalhes, né? 🙂

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Meu home office vivia mudando de configuração, cada hora tava de um jeito. É que, gente, eu enjôo muito fácil! Aliás, sabedor disso, meu marido embarreira logo quando eu sugiro comprar algum móvel menos básico. O que ele não entende é que não adianta, já que eu enjôo do básico também!

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Às vezes, virava quarto de visitas…

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Nosso quarto é outro lugar que já assumiu diversas formas. Geralmente, durante o verão, fica bem minimalista, já no inverno, ele vira ninho 🙂

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Por último, a região dos verdadeiros donos da casa: quarto (em duas fases diferentes) e play corner dos meninos 🙂

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E assim encerro esse tour nostálgico de várias fases da mesma casa. Será que estou pronta para partir para a próxima? Certamente, nossa próxima morada me trará infinitos desafios para deixá-la do meu (nosso) jeito.  Mas vamo que vamo, porque eu nunca corri de desafio 😉

E… foi dada a largada!

Agora a coisa tá ficando séria mesmo, oficializou.

Há dois dias, cataloguei todos os móveis que deixaremos para trás, tirei fotos e medidas e ontem comecei a listar tudinho para vender. Ô mão de obra, viu? Confesso que deu uma vontadezinha de chorar e não foi de tristeza, foi de desespero mesmo. Tanta coisa a fazer para concretizar essa mudança… Essa história de ficar mudando de país não é brincadeira, não, viu?

Como ainda temos algum tempo até partirmos, decidi começar anunciando no Gumtree (em vez de partir direto pro ebay), mas, gente, se arrependimento matasse…. O que eu recebo de proposta indecente, vou te contar, viu! Eu já postei os itens com valores super ultra razoáveis, mas neguinho deprecia, quer de graça! Dar vontade de responder a oferta com com um vasto “HAHAHAHA” (assim em caixa alta mesmo). E todas as ofertas ridículas, eu disse TODAS, são de pessoas com nomes de mesma origem. Impressionante! Não é preconceito, não, viu? é pós conceito mesmo. Mas claro que tem sempre um David, uma Megan, uma Julia… que chegam, pagam e levam, sem fazer cena, nem depreciar o item só pra jogar o preço na lama. Acho que é uma questão cultural, só pode. De qualquer forma, há situações em que acho uma afronta, uma falta de educação, falta de respeito, e minha vontade é de ser bem grossa, maaaas, ainda tô conseguindo me controlar.

Ontem mesmo, veio uma dupla dinâmica ver nossa ex cama. Disseram que vinham buscar (quando a pessoa quer só dar uma olhada, ela avisa, pergunta se pode… mas eles disseram que viriam buscar), vieram, olharam, chegaram ao cúmulo de perguntar: “mas você disse que havia uns arranhõezinhos… onde estão?” Ao que eu expliquei: “Não são bem arranhões, são apenas umas imperfeições próprias do material….” (realmente não era nada demais, mas eu odeio parecer que estou enganado as pessoas e prefiro que tenham uma boa surpresa). O que eu sei é que os fulanos olharam, olharam e no final disseram, com aquela cara de desprezo, que realmente não esperavam que estivesse em perfeitas condições (oi?) e perguntaram qual era meu preço mínimo. Eu, já de saco cheio dos olhares e atitudes deles, falei: “Olha, vou ser bem sincera, o valor que eu estou pedindo está bem justo, aliás, abaixo do justo, além disso, eu não estou com a menor pressa”. Disseram que iriam pensar e que dariam uma resposta em 10 minutos. Foram pro carro e ficaram parados em frente de casa, até que chegaram outros compradores interessados numa cômoda , entraram, pagaram e levaram. E a dupla dinâmica resolveu ir embora. Ou seja, apenas perdi meu precioso tempo com eles. Um saco.

Mas este foi só o primeiro caso maleta…

Na sequência teve ainda uma outra que me perseguiu, mandando mensagem pelo Gumtree e pelo celular (contei a dúzia!), primeiro barganhando, depois dizendo que precisava muito do sofa-cama e tal, mas que precisava esperar o marido voltar de viagem. Eu disse que reservaria pra ela, mediante o pagamento. Ela preferiu não pagar, mas garantiu que iria buscar mais tarde. Ela veio? Veio! Trouxe o marido, olhou, gostou e… não levou! Por quê? Sei lá!! Maluca! Me fez desarmar o troço, arrastar pela escada, colocar o elefante branco no meio da sala de estar, pra quê? Pra nada! Ou seja, veio só dar uma olhadinha. Pô, por que disse que vinha pick up, caramba?!

Pouca paciência pra essa gente, viu? Aff…

Mas como disse, claro que existem David, Megan, Julia, Sarah, Julie… que dizem que querem, chegam, pagam e levam. Tem uns até que antes de levar, ficam batendo um papo gostoso por uma hora! hahaha Mas esses não contam, eram filhos de Brasileiros (que eu nunca vi na vida, fato, mas o sangue brasileiro é forte, hahaha).

E a luta continua! Ainda temos muito a vender e o que não vendermos pelo valor anunciado, doaremos. Prefiro doar, do que receber “interessados” em falar mal dos meus móveis pra conseguir levar a preço de banana. E tenho dito.

 

O Outuno foi embora…

Só esqueceram de contar paras árvores.

Este ano tem sido realmente especial no que diz respeito ao clima. Até o último dia de outono, tivemos temperaturas brandas, o que não é habitual por aqui. Entretanto, quando o inverno chegou, veio com tudo e as manhãs tem sido geladas desde que junho entrou (a Austrália não respeita o calendário tradicional de mudança de estação. Aqui as estações trocam sempre no início do mês. Vai entender…). Geladas pros padrões australianos, claro. Pra mim, acordar com 4 graus, sair de casa com 6 ou 8 graus já é congelante.p1060096-1024x683

Agora imagina como será no inverno Coreano! Só não voltarei a sofrer como sofria em Bloomington, porque lá precisávamos, toda manhã, tirar o carro de baixo da neve e em Seoul, pelo menos, teremos garagem coberta 🙂

Mas não vim aqui pra reclamar antecipadamente, não, viu? Vim foi pra mostrar as fotos que tirei aqui na porta de casa, na última sexta-feira. Fotos com gostinho de saudade.

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Tava frio? Tava. Mas não muito (13 graus), então dei uma saidinha pra respirar o arzinho fresco e aproveitar a luz que tava linda batendo nas árvores (as fotos não fazem justiça, infelizmente).

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Sei que já disse isso, mas posso repetir? Vou sentir muita falta da nossa vidinha aqui 😦 mas estou animada (e cada vez que eu digo isso, me dá um frio enorme na barriga!) para começar um novo capítulo, vivenciar outros cenários e provar outros sabores.

Culturalismos: um desabafo – parte 2

Sobre o “acidente” com o xixi.

Faz um tempo que venho notando que, mesmo em casa, o Nickito não abaixa a calça direito para fazer xixi. Coloca só a mangueirinha pra fora e manda ver, o que resulta em alguns acidentes matinais quando ainda está meio grogue, ou na madrugada quando vai meio sonâmbulo ao banheiro. Achei, sinceramente, que fosse por conta do frio, mas esta semana descobri o real motivo e entendi o porquê do “treinamento” em casa.

Na quinta-feira, fui buscá-los na escola e Nickito estava se escondendo com uma sacolinha cheia de roupa na mão. Estavam na sacola sua calça, cueca e casaco, e ele estava usando uma calça extra da escola.

Como ele tem o hábito de deixar pra fazer xixi sempre no último segundo, para não perder nada da brincadeira, pensei logo que fosse este o caso, e qual não foi minha surpresa quando soube o real motivo do acidente que molhou até mesmo o casaco.

Quase chorando, ele me contou que se molhou todo porque não pode abaixar a calça pra fazer xixi, porque alguns meninos ficam no banheiro implicando, apontando e rindo. Então, para se proteger, ele ,antes de colocar a mangueirinha pra fora, ainda amarrou o casaco na cintura para garantir que não ficaria exposto. Aí, na pressa de fazer logo o xixi e sair dali, o acidente aconteceu.

Perguntei porque ele não usa o vaso que é mais privativo, e para meu completo estarrecimento, ele disse que não adianta, porque os meninos olham por baixo ou escalam a porta para olhar por cima. Ou seja, situação super tensa, para uma pobre criança de 5 anos.

E quando eu cheguei a duvidar da esdrúxula situação, o Vivi confirmou: “é verdade, mamãe, faz muito tempo que isso acontece! Ninguém pode ir ao banheiro e deixar a cueca ou o uma parte do bumbum aparecer que logo aparecem esses meninos para apontar, rir, implicar. Mas eu já me acostumei e já sei como fazer.”

Mas o pior mesmo foi ouvir o Nick dizer: “mamãe, eu fico sempre com muita vontade de chorar”.

Nessas horas, a mãe leoa tem vontade de ficar de plantão no banheiro e  puxar a orelha de todos os maus elementos que se atreverem a fazer isso com alguém.

Não é impressionante que uma coisa dessas seja corriqueira e que ninguém faça nada? Será que ninguém denuncia? Ou será que a  culpa é dessa política torta que não repreende, nem faz nada para inibir casos como este?

Acho muito curioso que um menino de 5 anos seja obrigado a se desculpar por algo que ele nem sabia que era errado (post anterior), enquanto atitudes abusivas como esta passam despercebidas e fazem parte do dia a dia.

Tá tudo errado, gente!

Já não é de hoje que eu me revolto com essa política, desculpem o termo, bunda mole das escolas, mas parece que eles simplesmente não se importam.

Em vez de recriminar crianças de 5 anos que inocentemente identificam cores de pele, eles deveriam repreender e suspender essas crianças intimidantes e mal educadas, que implicam, abusam e até batem nos mais fracos e avisar aos seus pais (se um filho meu fizer isso, eu quero ser notificada imediatamente!). Em vez disso, quando muito, sabem o que fazem, quando o caso é mais grave? Pedem para a criança ofensora escrever num papel seu pedido de desculpa e entregar para a criança ofendida. E pronto, acabou. Assunto encerrado.

Há algo de muito errado nesses princípios, nessas punições e na importância exagerada que dão a alguns fatos inocentes e na falta de atenção às atitudes realmente graves dos bullies de plantão.

Sim, tô revoltada. E claro, denunciei.

 

 

Culturalismos: um desabafo – parte 1

Esta semana, aconteceram duas situações (não relacionadas) com o Nick na escola:

1- Num dia, ele levou uma bronca da professora, que o mandou pedir desculpas a uma menina do quinto ano por ter dito que ela era marrom;

2- Noutro dia, ele teve um “acidente”, ficando com calça e casaco molhados de xixi.

Desenvolvo abaixo o primeiro tema:

Logo no início da semana, quando fui buscar os meninos no colégio, ao me ver, o Vivi já foi logo entregando: “A Mrs. Day brigou com o Nick hoje.”

Eu: Como assim, Vivi? Explica isso direito.

Vivi:  Eu vi que o Nick estava chorando muito e perguntei pra Mrs. Day o que tinha acontecido. Ela me contou que chamou a atenção dele e o fez pedir desculpas por ter falado pra uma menina do quinto ano que ela era marrom.

Ah gente, sinceramente, que mundo é este em que vivemos que uma criança de 5 anos não pode notar e expressar que as pessoas tem cores de pele diferentes?? Sério, o Nick às vezes é bem difícil, mas uma coisa é certa: ele não sabe o que é “racismo” nem preconceito. Ele não exclui os coleguinhas que tem a cor da pele diferente da dele, aliás, os melhores amigos dele, desde a creche SEMPRE foram ou chineses ou indianos, ou seja, pessoas com características físicas bem diferentes das dele.

O que me deixa fula da vida é ver uma educadora tratando o simples fato do menino ter falado pra menina que a pele dela era marrom como se fosse um insulto, uma atitude racista. Po, a pele dela é marrom, caramba! E não há nada de errado com isso! Mas a menina aprendeu (provavelmente com “educadores” deste tipo) que se alguém diz que ela é marrom, a está ofendendo. Ou seja, o que está implícito nesta forma de (des)educar é que ter a pele marrom não é legal, senão por que ela se ofenderia com o comentário?

Pessoas são fisicamente diferentes, umas tem cabelos loiros e lisos, outras pretos e crespos. Há ainda os ruivos, sardentos e aqueles com olhinhos puxados. Há negros, pardos e também os albinos e nenhuma dessas cores/características é enxergada por crianças pequenas como boas ou ruins. São os adultos, na verdade, que corrompem a inocência e ensinam isso de duas formas diferentes. Há aqueles que ensinam pelo (mau) exemplo, quando se desfazem do outro e ainda relacionam o feito à cor da pele ou características físicas. Quanta ignorância, né? O problema é que existe um grupo muito pior e mais perigoso que o dos ignorantes, aqueles que, com a melhor da intenções, ensina o preconceito e o “racismo” (entre aspas, sim, porque a raça é uma só, humana, as etnias é que são diferentes) em suas mensagens subliminares: são os educadores da infância que com seus discursos anti preconceito embutem no inconsciente das crianças que a cor da pele define se uma pessoa é melhor ou pior que a outra. Como? Dizendo para uma criancinha que é errado dizer para uma pessoa marrom que ela é marrom, por exemplo. Se em vez de repreender e fazer a criança se envergonhar do que disse (especialmente uma criança novinha), tratassem o óbvio  (a cor da pele e as características físicas) com leveza e naturalidade no dia a dia, explicando que existem diversas etnias no mundo e tratando isso como algo positivo e interessante, as crianças cresceriam enxergando a cor da pele como enxergam a cor de um sofá: como sendo apenas uma cor. Em vez disso, chama-se a atenção das crianças o tempo inteiro para o fato de que não devemos discriminar. Caramba, será que eles não percebem que as crianças pequenas naturalmente não discriminam, que quem traz esta ideia pra cabecinha delas são os adultos?!?!?

O que os educadores fazem, hoje em dia, é ensinar as crianças que é feio falar da cor da pele dos outros. Mas o que as crianças realmente aprendem com isso é: “ok, ele tem uma cor de pele diferente da minha, mas eu não posso falar disso, porque é preconceito”. Caramba! identificar cores não é preconceito! Preconceito é associar comportamentos à cor da pele! E sinceramente, isso começa a acontecer no momento em que você chama a atenção da criança para essa questão. Seria tão mais bonito abordar o tema de forma mais humana e com o sorriso no rosto: “é verdade, Nick, a fulana tem a pele marrom! É interessante como as pessoas tem cores diferentes, né? Sabia que marrom é uma de minhas cores favoritas? Quais são as suas? Vamos fazer um desenho usando todas as nossas cores favoritas?”

Mas em vez disso, o que a educadora faz? “Nick, por que você falou isso? Isso é muito feio! É preconceito (ou pior, “racismo”!)! Peça desculpas agora mesmo!” E assim, a criança fica envergonhada e triste, e desaba a chorar porque entende que fez algo de muito errado, entende que dizer que a pele da pessoa é marrom é muito errado e se é muito errado dizer isso é porque ter a pele marrom não é legal. E assim começa a nascer o preconceito na cabecinha da criança, que pode até nunca mais falar sobre a pele marrom de alguém, mas em silêncio e mesmo que inconscientemente vai pré-julgar as pessoas de pele marrom, ou pelo menos associar a cor da pele a uma situação ruim que viveu, quando foi repreendida sem entender muito bem o porquê.

Isso pra não falar da menina de pele marrom que sentiu-se tão ofendida por ter sua cor da pele notada por uma criança de 5 anos que correu para denunciar. Que mundo é este, minha gente! As crianças precisam ser ensinadas que cores são apenas cores, seja da pele ou do sofá! Se a menina achou uma ofensa grave um menininho chegar pra ela e comentar que sua pele era marrom é porque, ainda que inconscientemente, ela acha que ter a pele marrom a diminui de alguma forma. Que triste isso! Tenho certeza que se o Nick tivesse falado para uma criança que os olhos dela são azuis  ou que a pela era branca, não teria que se desculpar.

Na infância, a importância dos educadores é muito maior do que a gente pode imaginar e eles tem, sim, uma responsabilidade enorme em suas mãos, porque de nada adianta nós, pais e mães, ensinarmos em casa, conduzirmos da maneira correta, se na escola a instrução e a informação (mesmo e talvez principalmente a subentendida) que as crianças recebem não estiverem de acordo.

A verdade é que, em alguns aspectos, o poder que um professor tem sobre uma criança é muito maior do que o que uma mãe tem. Exemplo claro disso é que, em geral, as crianças respeitam mais, por exemplo, o pedido de silêncio da professora em sala de aula do que da mãe e casa. Da mesmo forma, aceitam melhor (resignadamente) a punição da professora do que da mãe. Vou ainda mais longe, acham que a professora sabe mais, sobre qualquer assunto, do que a mãe, afinal, ela é A professora! Quem aqui duvida? Então, há de se esperar que o que é ensinado na escola tenha um apelo muito maior na cabecinha das crianças, afinal, se a professora disse é que porque é verdade.

E eu, ah, eu tô cheia disso, dessas doutrinas cegas, dessas formas tortas de ensinar as coisas para as crianças, de colocar o foco na coisa errada e criar pessoas adestradas a fazer o que é certo em vez de criar pessoas boas e justas. Tanto os pais, quanto os educadores profissionais deveriam se esmerar para focar sempre no positivo em vez de simplesmente condicionar as crianças ao que é politicamente correto, especialmente durante a infância, que é a fase onde a personalidade começa a se formar.

Não é fácil. Educar não é nada fácil e exige um trabalho unidirecional e em conjunto de todos aqueles que exercem alguma influência sobre as crianças. Posso estar errada, mas não acho que as escolas, de um modo geral, estejam pegando o caminho certo na luta contra o preconceito. Não é dessa maneira que entregaremos para a sociedade adultos genuinamente despidos de preconceitos. Da forma como fazemos hoje, estamos entregando, quando muito, um modelo paraguaio, condicionado, adestrado.

Ma esta é apenas a minha opinião.


Em tempo: Quer ver um exemplo de boa educadora? Na creche, o Nickito tinha uma professora que ele simplesmente amava e ela a ele. Ela é bem gordinha e ele todo dia chegava e ia procurá-la para o abraço matinal. No meio do abraço ele dizia algo do tipo: “hmmm você é bem gordinha!”. Ele nunca falou isso com entonação pejorativa. Por que falaria? Ela, entretanto, poderia tê-lo repreendido, poderia ter focado no lado ruim, dizendo que é errado chamar alguém de gordinho, em vez disso, sempre emendava: “então me dá mais um abraço apertado” e os dois riam juntos.

Esta professora certamente está contribuindo para a formação de pessoas genuinamente boas e desprovidas de preconceitos. Pena que faz parte de uma minoria.

Faixa vermelha: eles crescem muito rápido

Nickito agora é um red belt no karate e tá todo orgulhoso.

Hoje fomos, os três, assistir a prova e a “cerimônia” de entrega da faixa vermelha. Tão bonitinho, gente!

Eu sou mãe boba e babona, né? Fico lá com o sorriso de orelha à orelha e às vezes com o nó na garganta, porque, gente, esses pequenos crescem tão rápido que até nos momentos de alegria eu sinto uma tristezinha.

Só de ver o Nickito fazendo os movimentos tão direitinho, tão coordenado, tão dedicado, eu penso: “Caramba, ele realmente não é mais um bebê! Daqui a pouco eu pisco e eles estão indo pra faculdade!” e aí, aquela alegria enorme que eu estava sentindo, começa a virar melancolia, saudade antecipada.

Alguém segura o tempo, por favor! Congela o relógio, manda a terra parar de rodar. Eu sei que a gente cria/prepara filho pro mundo, minha mãe sempre falou isso, mas me dá náuseas pensar que um dia meus filhos sairão de baixo das minhas asas e deixarão o ninho. Não sei lidar com isso 😦

Mas voltando ao faixa vermelha, deixo aqui algumas fotos para registrar o momento 🙂

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Em tempo: como prêmio pelo feito, Nickito escolheu ir no San Churro tomar um milkshake e comer um macaron de framboesa. Sábia escolha, já que o doce, nesta casa, está cada vez mais controlado 😉