Culturalismos: um desabafo – parte 1

Esta semana, aconteceram duas situações (não relacionadas) com o Nick na escola:

1- Num dia, ele levou uma bronca da professora, que o mandou pedir desculpas a uma menina do quinto ano por ter dito que ela era marrom;

2- Noutro dia, ele teve um “acidente”, ficando com calça e casaco molhados de xixi.

Desenvolvo abaixo o primeiro tema:

Logo no início da semana, quando fui buscar os meninos no colégio, ao me ver, o Vivi já foi logo entregando: “A Mrs. Day brigou com o Nick hoje.”

Eu: Como assim, Vivi? Explica isso direito.

Vivi:  Eu vi que o Nick estava chorando muito e perguntei pra Mrs. Day o que tinha acontecido. Ela me contou que chamou a atenção dele e o fez pedir desculpas por ter falado pra uma menina do quinto ano que ela era marrom.

Ah gente, sinceramente, que mundo é este em que vivemos que uma criança de 5 anos não pode notar e expressar que as pessoas tem cores de pele diferentes?? Sério, o Nick às vezes é bem difícil, mas uma coisa é certa: ele não sabe o que é “racismo” nem preconceito. Ele não exclui os coleguinhas que tem a cor da pele diferente da dele, aliás, os melhores amigos dele, desde a creche SEMPRE foram ou chineses ou indianos, ou seja, pessoas com características físicas bem diferentes das dele.

O que me deixa fula da vida é ver uma educadora tratando o simples fato do menino ter falado pra menina que a pele dela era marrom como se fosse um insulto, uma atitude racista. Po, a pele dela é marrom, caramba! E não há nada de errado com isso! Mas a menina aprendeu (provavelmente com “educadores” deste tipo) que se alguém diz que ela é marrom, a está ofendendo. Ou seja, o que está implícito nesta forma de (des)educar é que ter a pele marrom não é legal, senão por que ela se ofenderia com o comentário?

Pessoas são fisicamente diferentes, umas tem cabelos loiros e lisos, outras pretos e crespos. Há ainda os ruivos, sardentos e aqueles com olhinhos puxados. Há negros, pardos e também os albinos e nenhuma dessas cores/características é enxergada por crianças pequenas como boas ou ruins. São os adultos, na verdade, que corrompem a inocência e ensinam isso de duas formas diferentes. Há aqueles que ensinam pelo (mau) exemplo, quando se desfazem do outro e ainda relacionam o feito à cor da pele ou características físicas. Quanta ignorância, né? O problema é que existe um grupo muito pior e mais perigoso que o dos ignorantes, aqueles que, com a melhor da intenções, ensina o preconceito e o “racismo” (entre aspas, sim, porque a raça é uma só, humana, as etnias é que são diferentes) em suas mensagens subliminares: são os educadores da infância que com seus discursos anti preconceito embutem no inconsciente das crianças que a cor da pele define se uma pessoa é melhor ou pior que a outra. Como? Dizendo para uma criancinha que é errado dizer para uma pessoa marrom que ela é marrom, por exemplo. Se em vez de repreender e fazer a criança se envergonhar do que disse (especialmente uma criança novinha), tratassem o óbvio  (a cor da pele e as características físicas) com leveza e naturalidade no dia a dia, explicando que existem diversas etnias no mundo e tratando isso como algo positivo e interessante, as crianças cresceriam enxergando a cor da pele como enxergam a cor de um sofá: como sendo apenas uma cor. Em vez disso, chama-se a atenção das crianças o tempo inteiro para o fato de que não devemos discriminar. Caramba, será que eles não percebem que as crianças pequenas naturalmente não discriminam, que quem traz esta ideia pra cabecinha delas são os adultos?!?!?

O que os educadores fazem, hoje em dia, é ensinar as crianças que é feio falar da cor da pele dos outros. Mas o que as crianças realmente aprendem com isso é: “ok, ele tem uma cor de pele diferente da minha, mas eu não posso falar disso, porque é preconceito”. Caramba! identificar cores não é preconceito! Preconceito é associar comportamentos à cor da pele! E sinceramente, isso começa a acontecer no momento em que você chama a atenção da criança para essa questão. Seria tão mais bonito abordar o tema de forma mais humana e com o sorriso no rosto: “é verdade, Nick, a fulana tem a pele marrom! É interessante como as pessoas tem cores diferentes, né? Sabia que marrom é uma de minhas cores favoritas? Quais são as suas? Vamos fazer um desenho usando todas as nossas cores favoritas?”

Mas em vez disso, o que a educadora faz? “Nick, por que você falou isso? Isso é muito feio! É preconceito (ou pior, “racismo”!)! Peça desculpas agora mesmo!” E assim, a criança fica envergonhada e triste, e desaba a chorar porque entende que fez algo de muito errado, entende que dizer que a pele da pessoa é marrom é muito errado e se é muito errado dizer isso é porque ter a pele marrom não é legal. E assim começa a nascer o preconceito na cabecinha da criança, que pode até nunca mais falar sobre a pele marrom de alguém, mas em silêncio e mesmo que inconscientemente vai pré-julgar as pessoas de pele marrom, ou pelo menos associar a cor da pele a uma situação ruim que viveu, quando foi repreendida sem entender muito bem o porquê.

Isso pra não falar da menina de pele marrom que sentiu-se tão ofendida por ter sua cor da pele notada por uma criança de 5 anos que correu para denunciar. Que mundo é este, minha gente! As crianças precisam ser ensinadas que cores são apenas cores, seja da pele ou do sofá! Se a menina achou uma ofensa grave um menininho chegar pra ela e comentar que sua pele era marrom é porque, ainda que inconscientemente, ela acha que ter a pele marrom a diminui de alguma forma. Que triste isso! Tenho certeza que se o Nick tivesse falado para uma criança que os olhos dela são azuis  ou que a pela era branca, não teria que se desculpar.

Na infância, a importância dos educadores é muito maior do que a gente pode imaginar e eles tem, sim, uma responsabilidade enorme em suas mãos, porque de nada adianta nós, pais e mães, ensinarmos em casa, conduzirmos da maneira correta, se na escola a instrução e a informação (mesmo e talvez principalmente a subentendida) que as crianças recebem não estiverem de acordo.

A verdade é que, em alguns aspectos, o poder que um professor tem sobre uma criança é muito maior do que o que uma mãe tem. Exemplo claro disso é que, em geral, as crianças respeitam mais, por exemplo, o pedido de silêncio da professora em sala de aula do que da mãe e casa. Da mesmo forma, aceitam melhor (resignadamente) a punição da professora do que da mãe. Vou ainda mais longe, acham que a professora sabe mais, sobre qualquer assunto, do que a mãe, afinal, ela é A professora! Quem aqui duvida? Então, há de se esperar que o que é ensinado na escola tenha um apelo muito maior na cabecinha das crianças, afinal, se a professora disse é que porque é verdade.

E eu, ah, eu tô cheia disso, dessas doutrinas cegas, dessas formas tortas de ensinar as coisas para as crianças, de colocar o foco na coisa errada e criar pessoas adestradas a fazer o que é certo em vez de criar pessoas boas e justas. Tanto os pais, quanto os educadores profissionais deveriam se esmerar para focar sempre no positivo em vez de simplesmente condicionar as crianças ao que é politicamente correto, especialmente durante a infância, que é a fase onde a personalidade começa a se formar.

Não é fácil. Educar não é nada fácil e exige um trabalho unidirecional e em conjunto de todos aqueles que exercem alguma influência sobre as crianças. Posso estar errada, mas não acho que as escolas, de um modo geral, estejam pegando o caminho certo na luta contra o preconceito. Não é dessa maneira que entregaremos para a sociedade adultos genuinamente despidos de preconceitos. Da forma como fazemos hoje, estamos entregando, quando muito, um modelo paraguaio, condicionado, adestrado.

Ma esta é apenas a minha opinião.


Em tempo: Quer ver um exemplo de boa educadora? Na creche, o Nickito tinha uma professora que ele simplesmente amava e ela a ele. Ela é bem gordinha e ele todo dia chegava e ia procurá-la para o abraço matinal. No meio do abraço ele dizia algo do tipo: “hmmm você é bem gordinha!”. Ele nunca falou isso com entonação pejorativa. Por que falaria? Ela, entretanto, poderia tê-lo repreendido, poderia ter focado no lado ruim, dizendo que é errado chamar alguém de gordinho, em vez disso, sempre emendava: “então me dá mais um abraço apertado” e os dois riam juntos.

Esta professora certamente está contribuindo para a formação de pessoas genuinamente boas e desprovidas de preconceitos. Pena que faz parte de uma minoria.

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