Vida cigana não é para qualquer um, aliás, nem sei se é pra mim.

Este ano passamos o Natal na casa dos nossos amigos paulixtash, a Flavia e o Luciano. Como já é tradição, rolou, além da ceia na véspera, o enterro dos ossos no dia seguinte só com os mais próximos.

O Natal mesmo foi muito lotado, quase 40 pessoas, um exagero. Me canso só de lembrar. No final das contas, concordamos que 20 é um excelente número. Dá pra conversar, dar risada, se divertir, interagir com todo mundo, sem perder o caráter intimista e sem ser muito cansativo. Por mais que todo mundo ali fosse querido, 40 é a bit too much e por isso, acabei curtindo mais o enterro dos ossos com “apenas” 17 pessoas 🙂

Mas este post não é uma discussão sobre qual o número ideal de pessoas numa festa. A motivação deste post é me lamentar um pouquinho, mas só um pouquinho mesmo, porque eu não posso, de maneira nenhuma reclamar da minha vida.

Mas vamos a minha pequena lamentação:

Estou triste. Aquele tristeza relacionada aos problemas de primeiro mundo, problemas que não são problemas de verdade, sabe? Tô triste porque temos muitos amigos queridos, temos uma família aussie que vamos deixar pra trás (já é a terceira família que a gente deixa pra trás), quando embarcarmos rumo a nossa aventura coreana. Tanta gente boa, tanta gente querida… Quando eu penso que passaremos possivelmente uns 3 anos com escassez de brasileiros, me dá um frio na espinha. Porque, vamos combinar, né? Apesar de morarmos há quase 12 anos for a do Brasil, todos os nossos amigos próximos sempre foram brasileiros, e o motivo é um apenas: identidade. Por mais que tenhamos amigos de outras nacionalidades, são os brasileiros que falam a nossa língua, que compartilham da nossa cultura, que nos fazem sentir em casa. E é por isso que, quando eu penso em nossa vida num país asiático, me dá, sim, um frio na espinha, e até mesmo um certo pânico, com a possibilidade super real de não termos este conforto que só amigos de berço nos proporcionam. E como sentiremos falta dos nossos amigos brasileiros!

Quando eu digo que esta será nossa primeira experiência como expatriados, não é exagero meu, pode ter certeza. Muito embora nossa vida cigana já dure quase 12 anos, esta será a primeira vez que enfrentaremos um verdadeiro choque cultural, choque este que gera em mim sentimentos paradoxais: euforia pelo desconhecido e pânico do desconhecido, hahaha

Mas uma vida cigana não é feita apenas e euforia e pânico. Outro paradoxo bem presente, bem comum em nosso dia a dia é o: vai ser bom x vai ser ruim.

Como assim, Erica?

Explico:

Se por um lado, esta vida de eterno estrangeiro, pulando de galho em galho, aqui e ali, sem criar raízes em lugar nenhum, abre nossos horizontes, desmistifica muita coisa, nos permite experimentar situações, lugares e culturas das mais diversas, e nos faz colecionar histórias pra contar, por outro, tira o direito dos nossos filhos de ter raízes, de ter sua própria cultura, de ter um ninho, um país, uma cidade pra chamar de casa. Eles já nascem filhos do mundo e isso me dá uma certa aflição. Mas por que, Erica?

Ah, gente, mal ou bem, eu e o Mauricio vivemos por 26 anos na mesma cidade e temos amigos, que apesar de hoje em dia terem se distanciado, são amigos de uma vida inteira, que nos acompanharam por vários momentos, várias fases, do infantil à vida adulta. Amigos que nos conhecem, que sabem detalhes sobre nossas vidas, que fazem parte da nossa história, que estiveram conosco durante uma longa jornada. Nossos filhos, muito provavelmente não terão isso, não se continuarmos com esta vida cigana de paradoxos.

Me dói um pouco nossos filhos não conhecerem o folclore brasileiro. Me dói muito eles não poderem passar o fim de semana com os avós, os tios e primos. Me dói um pouco eles se expressarem muito melhor em inglês do que em português, Me dói muito eles não considerarem o Brasil a casa deles (mas por que o fariam?).

Ao mesmo tempo que sei que estamos proporcionando a eles experiências valiosíssimas, sei também que os estamos privando de muitas coisas importantíssimas. Mas e aí? O que fazer? Voltar pro Brasil não é uma opção – quem em sã consciência voltaria com família, mala e cuia, pra esse Brasil aos pedaços, depois de experimentar uma vida com dignidade, sem abismos sociais, uma vida segura, descomplicada? Quem? Certamente, eu não.

Não quero que meus filhos cresçam com medo de andar com a janela do carro aberta, ou de dirigir à noite. Não quero que eles cresçam num país onde a propina é o padrão para se resolver questões simples. Não quero também infartar de preocupação quando chegar a época deles saírem à noite com os amigos… Dito isso, infelizmente, ao que tudo indica, avós, tios e primos estarão sempre restritos às férias, às visitas esporádicas. E isso me deixa muito triste, mas quem disse que escolhas importantes são fáceis?

O que podemos fazer então para minimizar os efeitos da vida cigana nos nossos filhos? Fazer da Austrália nossa casa. Após nossa Aventura coreana, voltar pros braços da Austrália, que é a casa que eles conhecem. Justo, né? Senão conosco e com nossa família no Brasil, justo com eles, nossos pequenos australianos. E é por isso que penso, sim, em, daqui uns 3 anos, abrir mão da vida cigana e fixar residência neste país que nos acolheu como cidadãos, país onde nossos filhos sentem-se em casa, onde eles conhecem os costumes, a cultura, o folklore (melhor que a gente), país pro qual viemos por acaso, sem planejar, e fomos ficando até o bicho da inquietação começar a nos mordiscar.

O futuro a Deus pertence, mas hoje, neste 26 de dezembro de 2015, diria que existe uma grande chance de, pelos nossos filhos, voltarmos pra cá. Ainda que seja só até eles crescerem – aí, existe uma boa chance da gente resgatar a vida cigana e finalmente realizar meu sonho europeu 🙂

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