O dia em que perdemos o Vini

Era pra ter sido um dia super gostoso e cheio de boas energias – e, até certo ponto, foi – mas acabou sendo mesmo o dia mais desesperador da minha vida.

Ontem, fizemos um passeio até os Grampians, uma longa e linda caminhada para o alto e avante, que teve como recompensa uma vista maravilhosa, a sensação gostosa de “desafio cumprido” e muita sede. Peraí, a sede não foi recompensa, foi o preço que pagamos por não termos levado água suficiente para a trilha, rs

Até chegarmos ao topo da montanha, tudo às mil maravilhas, todo mundo feliz e contente, tirando mil fotos pelo caminho, driblando o calor e o sol nas caverninhas que pareciam ter ar refrigerado, uma beleza, e muito embora o percurso tenha sido bem cansativo, com trechos pedra à cima de fazer as pernas doer, ao chegar ao topo, a alegria (e o alívio, porque a partir dali era só pra baixo, rsrs) reinava. Até que resolvemos pegar o caminho de volta.

Assim que demos sinal de que iríamos pegar o caminho de volta, Vivisauro resolveu acompanhar o filho de uma amiga, um menino de 12 anos, que não era muito de papo e estava permanentemente com os fones nos ouvidos – ou seja, a cool dude. Os dois tomaram a dianteira, junto com uma parte do grupo que estava conosco. Nós descemos logo atrás.

Começamos a descida numa velocidade normal, mas como o Vivi estava fora do nosso campo de visão, aceleramos. Aceleramos tanto, que passamos pelo grupo que saiu um minuto antes da gente. E nada do Vivi, nem do outro menino. Aceleramos mais, apertamos o passo para marcha olímpica nos trechos em que era possível fazê-lo. Começamos a chamar por eles. Nada.

Fizemos a caminhada toda de volta num tempo recorde e no final, já estávamos correndo e gritando em desepero. Chegamos no estacionamento, com a esperança de encontrá-los lá nos esperando, mas isso não aconteceu. Meu coração já estava saindo pela boca, que estava mais seca que nunca. Eu tremia e já não conseguia mais falar. Mal saíam palavras em Português. Não conseguia pronunciar uma frase inteira em inglês – é impressionante como, em momentos de crise, quando perco o controle emocional, perco também o controle da fala, do raciocínio…

Estávamos em grupo, um grupo bem multinacional, cada casal/família de um país diferente e eu, que tenho morado em países de língua inglesa há 12 anos, não conseguia me comunicar, de tão nervosa.

Eu estava um zero à esquerda, não servia pra absolutamente nada. Quero acreditar, que se eu estivesse completamente sozinha, teria conseguido driblar este estado de completa inércia, mas sei não…

Todos se dividiram para ajudar. Eu fiquei no estacionamento com o Nick; o Mauricio e os pais do outro menino voltaram para a trilha, para refazer o caminho; um outro casal, pegou uma outra saída na bifurcação que havia no final da trilha e um outro pegou o carro e foi até a cidade falar com a polícia, porque, claro, o sinal de celular mal pegava naquele lugar. Na verdade, apenas um celular, o da mãe do outro menino, estava com sinal. Ela, antes de voltar para a trilha, deixou o celular comigo, just in case.

Tanta coisa se passou pela minha cabeça, tantas possibilidades, uma mais escabrosa que a outra.

A Austrália é, sim, um lugar super safe, mas das poucas histórias ruins que se ouve, a maioria envolve crianças sendo raptadas e…. enfim, coisas horríveis. Eu imaginava de tudo. Eles caídos num precipício, ou abduzidos por adultos mal intencionados. Foi um pesadelo.

Mas como até das piores situações se tira algo de bom, foi muito interessante sentir o apoio, não só dos amigos que nos acompanhavam, mas também de completos estranhos, que se mobilizaram e começaram a perguntar para tudo mundo que aparecia, se alguém havia visto o menino de boné amarelo (o boné do Jake, que o Vivi usa até pra tomar banho, rs, foi de grande valia, uma excelente referência!). E numa dessas, uma mãe veio me dizer que o filho dela havia visto, sim, dois meninos, um de boné amarelo, pegando a trilha para a cidade.

Não sei quanto tempo se passou, talvez umas duas horas, apesar de parecer ter durado o dia inteiro, até que de repente o telefone que estava comigo tocou. Eu atendi, mas não saía uma palavra da minha boca. Pra ser sincera, eu nem ouvi direito o que falaram do outro lado. Tremendo, eu passei o celular para uma amiga. Eram os meninos! Naquele momento eu apenas parei de sentir minhas pernas e caí no chão. Uma sensação estranha, de impotência, de incompetência. Um medo ainda latente.

Os meninos se distraíram e pagaram  o outro caminho na bifurcação e foram parar num camping na cidade. Ao chegarem lá, Vivi estava em pânico, achando que nunca mais nos veria novamente, mas o outro menino, completamente sereno, procurou um adulto e, contando que haviam se perdido, pediu para ligar para o número da mãe.

Um amigo foi até lá buscar os meninos, porque do jeito que minhas pernas tremiam, não havia a menor condição de dirigir.

Quando os vi saindo do carro, não consegui nem brigar com ele, tamanho era o alívio.

Tirando isso tudo, digamos que a primeira metade do dia foi uma maravilha, rs

 

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s