vida de pais x vida de avós

Dia desses, estava indo buscar o Vivi no colégio, quando presenciei uma cena que me fez repensar meu relacionamento com meus filhos.

Uma menininha correndo pelo meio-fio, sentou espremida entre um carro e a calçada. Na hora gelei, imaginando que acidente poderia acontecer… Fiquei tensa e imediatamente me imaginei chamando a atenção do Vivi, estivesse ele fazendo a mesma coisa. Cheguei a dar uma meia parada pra ter certeza que ela não se machucaria. Até que segundos depois, vi, vindo calmamente e rindo da “gaiatice”, o avô, que em vez de brigar, chamar a atenção, achava graça da peripécia da pequena. E ela, por sua vez, dava gargalhadas também. Só alegria!

No segundo em que compilei os elementos todos daquela cena, pensei: nossa, eu sou muito estressada! Será que toda mãe é assim?

Naquele dia, olhando o relacionamento daquele avô com a netinha, pensei: só os avós são felizes! Eles é que, de fato, curtem as crianças.

Como não são eles que educam, ganham o direito de rir da traquinagem, podem passar a mão na cabeça, podem dizer “deixa a criança!”, podem dar chocolate antes do almoço, levar pra tomar banho de chuva… tudo isso sem culpa, sem a preocupação de estar estragando a criança, ou criando um moleque mal educado. Avós são tudo de bom! Não brigam, são divertidos, deixam as crianças pintar e bordar e estão sempre apoiando a bagunça e muitas vezes participando dela.

Aí, adivinhem? Lembrei que meus filhos não tem vovô nem vovó aqui pertinho, participando do dia-a-dia, passando a mão na cabeça… ou seja, não tem esse balanço do good cop and bad cop… E nessa hora, maridón me consola: “quem no Brasil tem pai e mãe mais presente que esses moleques?”

É, ninguém! E nesse ponto, dois vivas pela vida aqui na Austrália, onde, muito embora tenhamos que privar os filhos das delícias de se ter avós presentes, nós, os pais, estamos sempre muito presentes – tanto pra brincar, quando pra zangar 😛

 

A vida na Austrália: Será que você está realmente preparado para morar tão longe das raízes?

“Nada do que foi será, de novo, do jeito que já foi um dia…”

Nada mesmo.

Seus amigos de sempre, aos poucos se distanciarão e com os anos, seu contato com a família não será mais diário. Sua cidade só será a mesma na sua lembrança. Você não estará mais por dentro das novidades, não saberá mais quais são os points, não estará presente no Natal, nos aniversários, no almoço de Páscoa. Você será um integrante virtual da família, que vive dentro do computador, do iPad, do iPhone, na telinha do Skype.

Se tiver sobrinhos, os verá crescendo pela internet, pelo whatsapp – e não com a frequência que gostaria. Um dia, você vai piscar e aquela sobrinha que era um pitoquinho de gente, que mal abria os olhos quando você deixou tudo pra trás, será uma adolescente. Você vai perder o nascimento dos sobrinhos, dos filhos das melhores amigas… Você não estará ao alcance dos braços, quando perdas irreparáveis acontecerem e, muito possivelmente não estará online quando sua mãe quiser muito falar com você. E sabe de uma coisa? Quando você, estando tão longe, passar por alguma situação muito difícil, vai lamentar profundamente não ter sua mãe e seu pai ali do seu lado pra te confortar, dar colo, pra dizer que tudo ficará bem.

Mas nada disso acontece de um dia pro outro, é um processo longo, contínuo e dolorosamente inevitável pra quem opta por morar tão longe. Um processo que deriva de escolhas, das suas escolhas.

Pra uns, os momentos mais difíceis são os iniciais, durante a fase de adaptação. Outros só vão encarar o prejuízo de se morar tão longe, bem mais tarde, passada a euforia da vida nova. Mas esteja certo de que cedo ou tarde, mesmo sentindo ou sabendo que se fez a escolha certa, lá no fundo, você se sentirá incompleto – mesmo tendo formado sua própria família, mesmo tendo amigos maravilhosos, mesmo estando super bem profissionalmente, mesmo sabendo que “se você quiser, pode voltar”.

Noutro dia, checando minha timeline no facebook, vi a mãe de uns amigos dizer algo assim:

” às vezes a saudade que eu sinto deles é tão grande, que eu choro quietinha no meu canto pra que ninguém perceba…”

Gente, essa frase bateu tão forte que não pude conter as lágrimas. Veio uma tristeza, uma melancolia… uma culpa.

Quando, aos 20 e poucos, a gente decide tentar a vida “no estrangeiro”, a gente avalia muita coisa, mas certamente não consegue dimensionar o quão difícil será uma vida tão longe das raízes, do ninho, da mamãe e do papai. Com o tempo a gente se acostuma (?), e de certa forma, salvo os momentos de crise, se anestesia – o ser humano é capaz de se moldar às mais difíceis situações.

Mas e quem ficou? Como deve ser “entregar” um filho pro mundo? O quanto deve doer ver um filho sofrer, de longe, sem poder abraçar, cuidar? O quão triste deve ser não ter em casa os filhos e netos reunidos para um almoço dominical? O quão difícil deve ser ter netos que você não abraça e beija e conta histórias, leva pra passear e senta no chão pra brincar?

Como deve ser duro aceitar que uma parte de você voe pra tão longe…

Eu, no alto do meu egoísmo não quero nunca passar pelo que fiz minha mãe e minha sogra passarem. Só de tentar imaginar ver meus filhos irem embora, de certa forma seguindo meus passos, me dá dor no estômago. Como eu pude fazer isso com meus pais, com a minha irmã, meus sogros, cunhados?

Claro que este não é o meu pensamento do dia-a-dia. A vida aqui é linda, é leve. O que é dura é a saudade – não só a que eu sinto, mas a que eu sei que minha família sente. A saudade que a gente gerou e cultiva dia-a-dia. A saudade que não tem data pra terminar.

Será que você está realmente preparado pra morar tão longe do seu ninho?

Minha mãe, que já achava que Bloomington (EUA) era longe, depois que viemos pra Melbourne teve que rever seu conceito de distância. A Austrália é longe pra caramba! Custa caro chegar (ou sair) e é uma viagem que parece não ter fim – especialmente quando se viaja com crianças ou quando não se é mais tão jovenzinho. É tão longe, que faz os Estados Unidos ou até mesmo a Europa parecer a lanchonete da esquina.  E quem disse que “longe é um lugar que não existe”? Ah, Richard Bach, existe sim, e se chama Austrália!

Desculpem-me o desabafo, o post sem glamour, a pegada realista, o ranço pessimista, mas nas últimas semanas, pequenas coisas aqui e ali se  juntaram e me colocaram num estado de melancolia, de tristeza, de querer tudo ao mesmo tempo, mesmo sabendo que é impossível.

Toda escolha tem dois lados e se, por um lado,  vir pra cá (ou simplesmente sair do Brasil) foi a melhor escolha que eu fiz na vida, por outro, foi também a pior, a escolha de consequências mais doloridas.

Como eu disse, eu sei que posso voltar, mas lá no fundo, eu sei que eu não vou voltar. Tudo o que eu mais queria na vida era poder trazer minha família toda, mãe, pai, irmã, sobrinhos, sogro, cunhados… todo mundo pra morar aqui do lado… e poder ter, todos os domingos, aquele almoço com a família reunida, as crianças correndo pela casa, as conversas à mesa, as gargalhadas… como num filme daqueles que tem o final feliz.

Aí eu te pergunto, será que você está mesmo preparado para morar tão longe das raízes?

Até hoje, quando eu pego uma gripe, fico imaginando minha mãe com um chá, meu pai com uma colherada de mel com própolis ou até mesmo minha irmã com algum remédio horroroso chegando pra cuidar de mim.

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Em tempo: A saudade quase mata, mas a vida é boa, muito boa. Só que, entendam, vida de estrangeiro é assim: uma montanha russa emocional. Tem dias que a saudade tá ali controlada na coleira, tem dias que ela, raivosa, foge e te ataca… e como todo ataque, causa dor, deixa marcas.

O inverno sempre me deixa mais sensível, mais pensativa, mais triste, mais saudosa… então não leve a mal esse post “balde de água fria”, porque as vantagens de morar tão longe são muitas. Não fossem tantas, eu daria por encerrado o imensurável sacrifício da saudade e voltaria correndo às origens.

Apesar de tudo, vale o sacrifício… quase sempre.