Escola Pública na Austrália: doações

Vivi, assim como 99% das crianças que conhecemos aqui, vai à escola pública que, diga-se de passagem, é bem bacana.

Lembro que demorei bastante até bater o martelo e me decidir pela escola que ele atenderia – recusei todas as que ficam na vizinhança, ou seja, ir a pé ou de bike (que é o aconselhável, o esperado e o que eu adoraria) não acontece aqui em casa.

O curriculum é basicamente o mesmo, e cada escola se diferencia por um ou outro programa extra curricular, estilo de aula e instalações.

Minha escolha foi baseada no sentimento (as usual). Quando vi a escola do Vivi, ainda por fora, meu coração me disse: “acho que encontrei!” Quando entrei e conheci as instalações, os professores e conversei com a diretora, tive certeza: “é esta!”

De todas as escolas que eu vi, era a única com acesso controlado. Normalmente as escolas públicas aqui são abertas, entra e sai quem quer. As áreas de recreação ficam acessíveis aos fins de semana para os moradores locais utilizarem – um conceito interessante, mas eu prefiro a segurança (mesmo aqui).

Mas hoje não vou desenvolver o tema, nem contar tintim por tintim o porquê de eu ter escolhido esta e não aquelas (pode ser até que eu já tenha feito isso, não lembro mais, rs). Hoje vim aqui contar que a escola até é pública, mas as doações, digamos, incentivadas, são infinitas.

Para que não haja mal entendidos, claro que doação é doação, faz quem quer, entretanto, o discurso de quem pede é sempre convincente. Já nem sei direito quantas doações fiz desde que ele entrou pra escola, mas tudo bem, não me incomodo, até porque, eles sempre deixam bem claro que se você não puder contribuir ou não quiser participar das campanhas, não tem problema. Mas… claro que tem.

São crianças. Se um no grupo não leva sua contribuição, obviamente ficará constrangido.

Um exemplo clássico de doação é o dia de levar uma gold coin (sempre que há algum evento). TODAS as crianças tem que levar a gold coin (Don’t forget to bring a gold coin! – eles reforçam). E criança, sabem como é né? Se até os adultos sentem-se coibidos a participar, quem dirá os pequenos que tem ainda mais aquela necessidade de fazer parte do grupo, de ser aceito, de ser igual. Mas o que é uma gold coin? Um ou dois dólares? Claro que ninguém se recusa a contribuir.

Coisa parecida acontece com as rifas. Todo bimestre tem pelo menos uma rifa, ou seja, 10 bilhetinhos são enviados para cada família: 10 dólares aqui, 10 dólares ali e a contribuição continua. Mas tudo bem, afinal o que são 10 dólares? Fico bem feliz de contribuir de alguma forma com a escola.

Mas aí, quando você menos espera, chega aquele aviso: Estamos super felizes em anunciar nosso próximo fundraise! (sim, próximo, do verbo, não é o primeiro do ano… nem o segundo, talvez nem o terceiro). Na penúltima semana de agosto, cada aluno receberá uma caixa de chocolates contendo 50 (eu disse cinquenta!) chocolates a serem vendidos por 1 dólar cada. Um dólar?? Sim, um dólar. Todo o dinheiro deverá ser entregue à escola na primeira semana de setembro. Se você não quiser participar, favor avisar ao colégio.

Pois bem, claro que a criança chega em casa toda eufórica porque quer fazer parte da campanha e contribuir com a arrecadação de fundos, né?

Mas, quem vai vender os chocolates, meu bem? Eu?? Sinceramente já dou graças a Deus que não tenho filhA e não preciso me preocupar com a annoying tradição das Scout girls de vender cookies de porta em porta (sério, me dá até um frio na espinha, só de pensar!). Acho que aqui na Austrália isso não é tão comum como nos EUA, mas lembro bem como era por lá (e olha que eu nem filhos tinha na época!). Todo mundo tinha uma menininha bonitinha de maria chiquinha vendendo cookies. E você, obviamente se sente no dever de comprar pelo menos uma caixinha superfaturada de cookies pra ajudar a menininha sorridente a atingir sua meta e ir feliz pra casa. Que tipo de monstro é você que não cede aos encantos de menininhas educadinhas de maria chiquinha que batem a sua porta ou te esperam na porta do mercado?

A história da caixa com 50 chocolates não é diferente (só mais barata, rs).

Eu não tenho cara de perguntar pros amigos se eles querem contribuir comprando um chocolatinho, tampouco de bater de porta em porta oferecendo pros vizinhos.  Eu não tenho, muito menos o Mauricio e, pasme, tampouco o Vivi, que ainda falou assim: “eu vou ficar com vergonha de vender pras pessoas, mamãe”.  E, gente, não me entendam mal, não é a vergonha do ato de vender, mas de colocar o suposto comprador numa situação delicada, vergonha sim, de deixá-lo constrangido, na desconfortável posição de não saber como dizer não – já estive lá várias vezes!

Desculpem a sinceridade, mas acho uma covardia colocar crianças para vender doces e biscoitos. Covardia não com a criança, que fique claro. Covardia com as pessoas abordadas. Fazendo isso, você está se aproveitando de uma imagem frágil e inocente, que praticamente aniquila o direito da pobre vítima de dizer “não, obrigado”.

Olha, vou até me esconder aqui e me proteger das pedras que serão lançadas sobre mim, mas de certa forma, scout girls (ou pequenos estudantes) vendendo doces e biscoitos de porta em porta e as criancinhas que vendem doces e biscoitos no sinal de trânsito no Brasil se assemelham. Ambas foram instruídas pelos seus pais ou responsáveis pra tal. Aquelas para arrecadar fundos para uma causa, e estas para ajudar nas despesas de casa. O princípio é o mesmo. Diferentes são as realidades e motivação. Um é eventual e o outro é diário. Um é for fun e o outro é por necessidade. Um é feito por crianças que estudam, outro por crianças que só trabalham. Mas em ambos os casos há responsáveis por trás que sabem (ainda que inconscientemente) dos benefícios da imagem infantil e da dificuldade que os adultos tem de dizer não para crianças. Ou você acha que o apelo de um adulto e de uma criança é o mesmo? Anyways, não quero comprar briga, é só meu ponto de vista, rs.

Mas então o que vamos fazer? Comprar os 50 chocolates, ora! Que jeito? Depois eu uso esses chocolatinhos de ouro pra encher as lollybags do aniversário dos meninos :).

Pra fechar, meu ponto (que acabou evoluindo pra outro lado, como de costume) é o seguinte: a escola é quase de graça, visto que as taxas anuais são bem baixas e o que se tem em troca é um serviço de alta qualidade. Mas pô, me irrita um pouco sugerir o uso da imagem das crianças para arrecadar fundos, as taxas ocultas, disfarçadas sob forma de doações, às quais você não consegue dizer não (até porque, não fazem diferença nenhuma no seu orçamento). Eu, ficaria muito mais à vontade se no início do ano, mandassem uma conta explicadinha, incluindo todas as doações sugeridas. Todas. Mas esta sou eu. Entendo que haja famílias que realmente não podem pagar as taxas e que ainda assim gostariam de contribuir, vendendo os chocolates pros vizinhos.

Pronto, falei! 😉

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s