Brasileiros na Australia – um café da tarde regado a experiências migratórias

Semana passada, muitos brasileiros ficaram em polvorosa por conta da tal lista de carreiras e profissões em demanda na Austrália. Muita gente viu nessa lista a esperança de mudar, a oportunidade de dar uma guinada na vida, a possibilidade de viver uma realidade diferente, num lugar onde o medo não mora ao lado, num país generoso, que abre as portas e convida imigrantes a chamá-lo de casa.

Mas claro que, como tudo na vida, a história não é tão simples assim e o fato de existir uma lista generosa de profissões em demanda na Aussie Land não te dá a garantia de emprego, tampouco de sucesso. O processo migratório é árduo pra todo mundo, seja pela saudade imensurável que só compreende quem mora do outro lado do globo, seja pelas dificuldades que enfrentamos nos primeiros momentos da vida nova, ou ainda pelos desafios impostos pela fluência da língua e muitas vezes também pela cultura. O fato é que todos que aqui estão tem alguma história de superação digna de ser publicada e lida, especialmente por aqueles que sonham em se aventurar além dos muros invisíveis que temos ao nosso redor quando estamos em nossa terra de origem – a tal da zona de conforto.

Deixar pra trás a família, os amigos, a casa, o país, o conforto do “conhecido”, o emprego e também tudo o que conquistamos durante anos não é pra qualquer um. Começar de novo, em solo estrangeiro, muitas vezes do zero, requer muito mais do que o desejo de mudar de vida,  muito mais do que o desprender-se, do que virar a página. Muito mais do que o espírito aventureiro, requer determinação, concentração, persistência, jogo de cintura, mente aberta, humildade e muitas vezes uma boa dose de cara de pau, porque dificilmente a oportunidade vai bater a sua porta – tem que correr atrás merrrmo, neguinho!

Mas porque eu, que há séculos não falo sobre questões da Austrália (sem que estejam de alguma forma relacionadas aos meus rebentos, rs), estou levantando o ponto agora? Eu te conto…

Foi neste sábado que, reunidos na casa de amigos, tivemos um daqueles encontros VIP, recheado de brasileiros, regado a muita comida, gargalhadas e histórias das mais diversas possíveis. Foi um café nostálgico permeado por relatos de brasileiros que, à primeira vista,  em comum tem basicamente o fato de serem brasileiros.

Estávamos lá, ao redor daquela mesa, um grupo eclético, uns já estabilizados emocional e profissionalmente, outros ainda no iniciozinho da jornada, batalhando por um lugar ao sol. Pessoas de idades e profissões diferentes, que vieram de cidades diferentes, donos de realidades e histórias diferentes e que ainda assim, mesmo tendo, aparentemente, tão pouco em comum, se esbarraram, se reconheceram, se encontraram num grupo carimbado por algumas semelhanças inegáveis: o país de origem, o de destino e o sonho de uma vida diferente. Mas se você olhar bem de pertinho, vai ver que não é só isso.

Sentada àquela mesa, ora contando, ora ouvindo histórias alheias, me peguei pensando no quão pequena era minha experiência de vida antes de me aventurar fora do Brasil, há quase 10 anos. Até então o grupo mais eclético de pessoas que havia passado pela minha vida tinha sido os amigos de faculdade, quando saí daquela vida bairrista adolescente, e conheci pessoas de toda parte do Rio (ohhh). Naquela época, mal sabia eu o que me aguardava. Nem imaginava que dali uns anos, alguns dos meus melhores amigos seriam paulistas/paulistanos – ô praga, hahaha. Não imaginava também que me reinventaria tantas vezes, tampouco poderia supor que chamaria de família, amigos que se tornaram tão próximos mesmo sendo tão diferentes de mim.

Naquele sábado, olhando ao redor, observando cada amigo, ouvindo mais um pedacinho das suas histórias, dos seus medos, das suas superações… tive a certeza de que o que nos une é muito mais do que o fato de sermos brasileiros, é um estado de espírito, uma inquietação que não nos permitiu nos acomodar, que nos impulsionou a desbravar novos territórios e escrever histórias que jamais seriam escritas nas grades do berço esplêndido. Ali eu tive a certeza de que o que temos em comum vai muito além da brasilidade. Nós todos nos apaixonamos pela Austrália (ainda que em momentos diferentes de nossas trajetórias), e mais do que isso, nós todos somos gratos a este país que não só nos abriu as portas, mas nos acolheu e nos aceitou (a muitos já) como cidadãos australianos.  Nossas diferenças podem ser muitas, mas nossa identidade é muito forte.

Sou muito grata a Deus, à vida, ao destino, às minhas escolhas, à proposta do meu marido e a todos que de alguma forma contribuíram para que eu esteja onde estou hoje – escrevendo uma história a cada obstáculos, a cada conquista, a cada tristeza, a cada alegria, a cada desespero, a cada euforia. Não troco a minha experiência de vida, nem por uma cobertura na Vieira Souto. Não troco minhas gafes, meus tropeços, meu aprendizado por nada.  Graças a isso, sou muito feliz com a Erica de hoje – mesmo morrendo de saudades da família, dos amigos e da minha cidade maravilhosa.

Veja bem, são 10 anos fora e morando de aluguel. Não fiquei rica, minha conta no banco é modesta, mas minha conta na alma é gorda, e, certamente, nunca me faltará histórias pra contar.

Já passamos por perdas que nos fizeram questionar se estávamos mesmo fazendo a coisa certa, mas já tivemos também muitos motivos para comemorar.

E hoje eu vim aqui especialmente pra dizer isso: É muito bom estar aqui, viver uma vida sem medos, ter amigos lindos, que parecem que foram escolhidos a dedo, quando na verdade foram um presente do acaso (ou seria da identidade que nos atraiu?). Ao contrário da eterna saudade, arrependimento não faz parte do nosso rol de sentimentos. Não mesmo. Tudo valeu a pena. Melhor que isso, tudo está valendo a pena, porque eu tenho certeza que, por mais que hoje estejamos estabilizados, muito ainda há por conquistar, e esta é uma das belezas de se morar fora, sua vida dificilmente será monótona, seu futuro dificilmente será previsível. Sem falar que o mundo, que é tão grande, hoje me parece pequeno, acessível. Desculpe-me a redundância, mas perder as amarras é realmente libertador 🙂

Se você é como eu, o Mauricio, a Carol Martins, o Cassius, a Ana, o Renan, a Flavia, o Luciano, a Carol Milani, o Humberto, a Luciana, o Raul, a Mafê, o Marcelo, e tantos outros… se você também tem o espírito aventureiro, a determinação, a persistência e o desprendimento necessários, para encarar uma mudança de verdade, vir para a Austrália pode sim ser a maior viagem da sua vida – daquelas que em que você vai acumulando a melhor das bagagens a cada dia, uma bagagem que não pesa, que te transforma, que abre seus olhos, que amplia seus horizontes.

Entretanto, aviso: migrar não é pra qualquer um, e deve ser feito com cautela, no tempo certo e especialmente sabendo que nada é 100% garantido. Por mais que eu ame morar aqui e que aconselhe prozamigo :), acho importante que os candidatos a vida nova tenham em mente que vender tudo no Brasil e vir pra cá com filhos e sem emprego garantido é um risco com chances maiores de decepção. Pra você que se empolgou com a lista e está querendo vir de mala e cuia e rebentos, aconselho: cautela e planejamento cuidadoso são muito mais importantes do que o espírito aventureiro. Pra você que é estudante, solteiro, recém-casado ou recém formado: se joga! hahaha Se não der certo, você volta. Para todos que pretendem conseguir um emprego na sua área aqui: inglês fluente e experiência são fundamentais – claro, sempre é possível fazer o caminho mais longo, aprender inglês aqui, trabalhar em outras áreas… até finalmente chegar onde quer. Só tenha em mente que o processo não é pra qualquer um e que sempre há espaço para angústia, estresse, decepção… como tudo na vida.

Mas ó, digo e repito, perder as amarras é libertador! Aliás, é enriquecedor.

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PS. Este post foi inspirado pelo papo no café da tarde e combinado com a Carol, uma amiga que escreve um blog nota 1000, parada obrigatória pra você que quer saber mais detalhes sobre a vida em Melbourne. 

 

 

3 Comments

  1. Sinceramente você descreveu o que sinto mas JAMAIS iria conseguir expressar em palavras.
    Orgulho do “acaso” ou da identidade.. seja lá o que for… feliz de ter minha amiga carioca que está sempre alí… presente. Love you heaps

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