Ele acha que é meu dono

Hoje, enquanto eu tentava fazer os exercícios de reading com o Vivi, vi um menininho pacífico se transformar, aos poucos, numa fera furiosa.

Primeiro ele tentou participar, ficava repetindo as palavras e fonemas ao longo da estorinha. Depois quis sentar mais perto (no meu colo). E por último, quando viu que a mamãe dele estava se concentrando mais no big brother, foi à loucura, berrou até as veias do pescoço saltarem e a cabeça ficar inteirinha vermelha/roxa. Gritou até perder o ar, chorou lágrimas pesadas de crocodilo, até que parou de repente (quando eu fechei o livro e dei colinho pra tentar acalmá-lo).

Assim fica bem difícil… O big brother já não é assim um poço de interesse, e o pequeno ainda resolve dar ataque de ciúmes, carambolas! Haja imaginação pra criar o enviroment que o Vivi precisa e não deixar o pequeno descontente (afinal de contas, como elezinho diz “meo mamãe!”).

Vivi, enquanto estudante

O Vivi adora ir à escola – muito mais do que gostava de ir pro Kinder! – aí você, que passa e lê, pensa: good boy, garoto interessado! Só que não.

Ele gosta da escola, da professora, dos amigos, da hora do lanche, das brincadeiras… e quando é questionado sobre o que mais gosta no colégio, responde: “every single thing!”, mas é mentira da barata! A verdade verdadeira é que ele gosta mesmo é da liberdade que tem a maior parte do tempo. Eh, gente, escola australiana foca no social, na criatividade, na liberdade de expressão, no relacionar-se com o próximo, no “construir” crianças independentes. Tudo isso é muito bonito, mas e na hora do vamos ver? Na hora de juntar as letrinhas, de aprender, de sentar e prestar atenção na professora, mesmo que seja por míseros 5 minutos?

O sistema aqui parece ser muito eficiente, as aulas são dinâmicas e participativas, as ferramentas são excelentes e os professores não ficam atrás, mas o meu bonitinho não é lá um exemplo de concentração e viaja na maionese, conversa com o coleguinha, faz bagunça e atrapalha a aula – isso com o que? apenas três semanas de aula!

O caso é tão sério, que ontem, quando fui buscá-lo, a primeira coisa que ele me contou, todo orgulhoso, foi: “mamãe, mamãe! Hoje a Mrs. Holley não teve que me trocar de lugar!!!”

Nunca imaginei que um filho meu fosse dar trabalho na escola, mas esse meu Vivi-da-Silva-Sauro já vem mostrando a que veio. E veio pra dar muito pano pra manga.

Às vezes acho que ele precisava de um ritmo “colégio militar”, com muita disciplina e rédeas curtas, porque se eu, que acompanho super de perto em casa encontro muita dificuldade em mantê-lo na linha, imagina uma professora que tem que olhar por 20 alunos.

Sinto que terei muito trabalho pela frente.

 

meu school boy

Dia primeiro de fevereiro foi, oficialmente, o primeiro dia do Vivisauro na escola. Tá foi half-day, mas já tava valendo.

Ao contrário de todas as vezes que o deixávamos na creche, Vivizinho não teve problemas pra dar tchau, não agarrou na saia da mamãe, nem na perna do papai. Não chorou nem fez beicinho, pelo contrário, ficou feliz da vida feito um homenzinho (ih, rimou, rs)

Ele está nas nuvens, todo orgulhoso de ser um school boy. Se dependesse dele, iria pra escola até aos finais de semana.

A escola aqui na Austrália é bem diferente da escola brasileira (de um modo geral, claro). Aqui se prioriza as quetões sociais e criativas. A criança tem uma liberdade maior e muito, muito menos pressão. O aprendizado é encarado de uma forma natural e não há sequer provinhas tensas bimestrais. As turmas são pequenas (cerca de 20 crianças) e cada aluno é acompanhado bem de perto. Mas não vou me alongar muito nesse assunto, senão esse post não acaba e eu ainda tenho roupa pra lavar e casa pra limpar :). Além do mais, hoje é dia de apresentar pra vocês o Vivi – parte 2: o school boy!

acordando

na porta da escola

guardando a mochila

na hora da saída – olha a pinta do moleque 😛

Esse foi primeiro dia, ele ainda estava pouco a vontade, mas ao final do terceiro dia (na realidade o primeiro full day), ele estava todo malandrinho, pedindo hi5 pros meninos mais velhos… só vendo pra ter noção, rs

A primeira vez…

Foi ontem à noite que, pela primeira vez, tive que enfrentar meu pavor e matar com minhas próprias mãos, quer dizer, com uma lata quase inteira de spray-mata-barata (que sabiamente comprei semana passada), uma baratona-pretona-cascudona-nojentona (e nem venha me dizer que barata de jardim não é nojenta, porque é! Todas elas são!) que apareceu no teto da sala de estar – elas, quando aparecem aqui dentro de casa, SEMPRE aparecem no teto, perto da saída do ar condicionado/aquecimento.

Anyways, a cada esguichada que eu dava na dita cuja, era um grito que saía do meu âmago, um arrepio nervoso de levantar todos os pêlos dos pés à cabeça, mas venci! Tá, como eu usei a lata quase toda, a barata morreria intoxicada ou afogada, não ia ter jeito.

E o nervoso, depois, pra pegar aquela coisa nojenta e jogar fora? Usei meio-rolo de papel toalha (não pensem vocês que estou exagerando porque não estou!), pra não sentir aquele cadáver nos meus dedinhos. Enrolei, coloquei dentro de uma sacola e dei dois nós. Só então, ela foi pro lixo – pô, tá pensando o quê? Já vi barata se fingir de morta! Eu é que não arrisco! Já imaginou se na manhã seguinte eu abro a lixeira e vem uma barata em cima de mim? Seguro morreu de velho…

Oh well, eu sobrevivi, e dessa primeira vez, infelizmente, jamais esquecerei. Só espero que não haja uma segunda… pelo menos não este ano.

Ah, os meninos assistiram, de perto, toda a cena (que pra fim foi em câmera lenta), calados e com os olhos arregalados. Será que eu fiz muito escândalo?

O céu está em festa, já a terra chora

Não faz nem dois dias, ficamos órfãos de uma das pessoas mais maravilhosas que conheci na vida.

Exemplo de esposa, de mãe, de filha, de irmã, de amiga, de companheira. Poderia até dizer que também foi um exemplo de sogra, mas esse nome, sogra, traz com ele uma carga muito forte, um sentido pra lá de pejorativo, que em nada combina com o que essa mulher de luz representa em minha vida.

Graças à ela, eu tenho o melhor dos maridos. Foi ela quem gerou, criou, educou, ensinou e porque não dizer, construiu o pai dos meus filhos, um homem íntegro, de caráter exemplar, justo como poucos, maravilhoso.

Graças à ela, eu nunca, nem por um segundo, tive “sogra”, mas sim uma segunda mãe.

Eu, desde o primeiro dia, fui recebida com um carinho sem medidas, e assim foi até o fim. Quantos não foram os “cozidos da Erica”, que ela preparava com amor de mãe? Ou a beringela de panela que ela sabia que eu adorava? Ou mesmo meu pote de Nutela que nunca faltava… Até papinha de ameixa, pra regular a flora,  ela se preocupava em comprar…

Dos menores aos maiores gestos, sempre me senti querida e espero que ela também tenha sentido o meu enorme carinho – todos que me conhecem sabem bem, da minha “mother-in law” eu sempre tive somente boas coisas a dizer, o que, de certa forma, muitas vezes me deixava deslocada nas conversas, afinal, poucas tem a mesma sorte que eu tive!

Sempre com  um sorriso de orelha à orelha, emanando otimismo e alegria, mesmo nas horas mais difíceis, a Soninha era sem dúvida uma pessoa iluminada. Uma ouvinte nata,  sempre com uma palavra de conforto e carinho.

Viveu uma vida de doação, sempre correndo atrás de um e de outro, ajudando, amparando, oferecendo a mão (e nela o coração), ela não descansava, estava sempre resolvendo ou pelo menos tentando resolver o problema de alguém. E sua dedicação não se resumia apenas à família, aos amigos e conhecidos. Como pediatra sempre foi um verdadeiro exemplo – não havia hora que fosse tarde, tampouco férias que a impedissem de trabalhar. A Dra. Sonia estava sempre alerta e, de pronto, atendia telefonemas, retornava mensagens, respondia emails, fosse o dia que fosse, fosse a hora que fosse, ainda que estivesse visitando os netos aqui do outro lado do mundo.

Sem sombra de dúvida, ela fez a diferença na vida de todos os que cruzaram seu caminho.

Mãe dedicada, amiga presente, filha exemplar, esposa companheira e avó babona, ela não media esforços pra agradar, cuidar. Com os netos, sentava no chão e entrava na brincadeira, fosse numa carruagem de algum conto de fadas, fosse no vilarejo dos Smurfs. Não importava o tema, ela mimava os netos até a última gota. E como gostava de crianças!

Vou sentir falta do carinho, dos almoços de família, das minhas conversas com ela após o jantar, que sempre varavam a noite… do jeitinho dela de cuidar com carino e dedicação, mesmo o mais singelo dos resfriados… também vou sentir falta de ouvir  a musiquinha do “alecrim dourado”, sempre que preparava seu famoso suflê de cenoura. Vou sentir falta da animação, da alegria que contagiava a todos.

Ela se foi  deixando no coração de quem ficou, uma dor profunda e a certeza de que foi muito curta sua estada aqui na terra.

Hoje a dor é muito grande, mas eu sei que um dia essa dor vai passar e vai dar lugar à saudade. Mais do que isso, sei também que um dia a gente vai se reencontrar e nesse dia, eu verei novamente seu sorriso largo e a ouvirei cantarolar uma música assim com a letra meio trocada, meio inventada, enquanto prepara o “Cozido da Erica”, pra me dar as boas vindas, porque seja aqui, seja lá do outro lado, a Soninha será sempre a mesma, que fica feliz pelo simples fato de deixar alguém feliz.

Hoje o Céu está em festa, já a Terra chora… E nós, que ficamos, ainda não conseguimos acreditar que ela se foi assim de repente.

Fique em paz, Soninha e, daí de cima, continue olhando por nós.

Que Deus nos conforte. Amém.

(19 – jan- 2012) Soninha rodeada pelos netos, noras, genro e mãe